Paciente de 84 anos, hipertenso, coronariopata, recebeu implante de marcapasso endocárdico definitivo dupla-câmara, devido a quadro de bloqueio atrioventricular de 2º grau associado a cansaço e episódios de síncope. Aproximadamente duas semanas após o implante, apresentou novo episódio de síncope em sua residência. Interrogação ambulatorial do dispositivo revelou queda abrupta da impedância de eletrodo ventricular. Sobre o caso acima, assinale a afirmativa correta.
- A)A hipótese mais provável é fratura do eletrodo ventricular, gerando baixas cargas de estimulação e falha de captura ventricular.
Errada: fratura do eletrodo costuma elevar, e não reduzir, a impedância, embora possa causar falha de captura.
- B)Deve ter ocorrido lesão da camada externa de isolamento do eletrodo, criando shunt da corrente elétrica entre anodo e catodo.
Certa: defeito no isolamento cria fuga de corrente, reduz a impedância e pode levar a perda de captura.
- C)A queda abrupta da impedância pode ser causada pela liberação de glicocorticoides pela ponta do eletrodo, reduzindo a reação inflamatória local.
Errada: liberação de glicocorticoides na ponta do eletrodo reduz reação inflamatória local, mas não explica a queda abrupta da impedância.
- D)A causa do problema deve ser o deslocamento da posição do eletrodo, sendo essencial a realização de radiografia de tórax para confirmação.
Errada: deslocamento do eletrodo pode causar mau funcionamento, mas o dado-chave do caso é elétrico, não radiológico.
- E)Uma medida normal da impedância durante a interrogação do dispositivo exclui alterações relacionadas ao eletrodo.
Errada: impedância normal não exclui completamente problema de eletrodo, porque algumas falhas podem ser intermitentes ou não alterar o valor em repouso.
Gabarito: B
Em marcapasso, a impedância do eletrodo funciona quase como um "termômetro elétrico" do circuito: ela ajuda a sugerir se o sistema está íntegro ou com algum defeito mecânico. Quando ocorre queda abrupta da impedância, o raciocínio mais clássico é falha no isolamento do cabo/eletrodo, porque a corrente passa a escapar por um atalho, reduzindo a resistência do sistema. Já a fratura do eletrodo costuma fazer o contrário: aumenta a impedância, pois o circuito fica interrompido ou parcialmente interrompido. Então, se a prova fala em queda abrupta, desconfie da ideia de rompimento do isolamento, não de fratura. Aqui a síncope após o implante reforça que houve problema funcional do marcapasso com falha de estimulação/captura. Outro detalhe importante é que o eletrodo endocárdico pode apresentar deslocamento, mas isso não é a pista elétrica principal descrita no enunciado. Radiografia pode ajudar em alguns casos, porém a informação mais valiosa da questão é a mudança brusca da impedância no interrogatório do dispositivo, que aponta para defeito do eletrodo. Em linhas práticas: impedância baixa = suspeite de isolamento; impedância alta = suspeite de fratura ou mau contato. A alternativa B está correta porque descreve exatamente a lesão da camada externa de isolamento, com shunt da corrente elétrica entre ânodo e cátodo, reduzindo a impedância medida no dispositivo. É o tipo de detalhe que banca adora cobrar, porque parece físico demais, mas na verdade é só o marcapasso dando "S.O.S." em linguagem elétrica.