Homem 24 anos, portador de Imunodeficiência Adquirida (HIV), chega à emergência queixando-se de dor abdominal, vômitos e perda de apetite. A ultrassonografia de abdome realizada naquele momento demostra que o fígado está dentro da normalidade, porém a vesícula está dilatada e há dilatação das vias biliares extra-hepáticas, sem sinais obstrutivos. Exames laboratoriais com elevação da fosfatase alcalina em 6 vezes o valor de referência, transaminases normais e bilirrubinas discretamente elevadas. Mediante esses dados, indique o agente etiológico mais provável.
- A)Infeção pelo Cryptosporidium.
Correta, pois Cryptosporidium é um oportunista clássico do HIV e pode causar colangiopatia com padrão colestático e dilatação biliar sem obstrução mecânica.
- B)Infeção pelo próprio retrovírus.
Errada, porque o próprio HIV não é o agente típico desse quadro biliar, atuando como fator de imunossupressão e não como causa direta da colangiopatia.
- C)Infeção por Clostridium difficile.
Errada, pois Clostridium difficile se relaciona sobretudo a colite associada a antibióticos, não a doença obstrutiva/inflamatória das vias biliares.
- D)Infeção pelo Crytococcus neoformans.
Errada, porque Cryptococcus neoformans pode causar meningite e doença pulmonar em imunossuprimidos, mas não é a causa clássica desse padrão de colangite.
- E)Infeção pelo Toxoplasma Gondii.
Errada, pois Toxoplasma gondii é lembrado principalmente por acometimento neurológico em HIV, não por colangiopatia biliar típica.
Gabarito: A
Em paciente com HIV, dor abdominal, náuseas/vômitos e um padrão colestático laboratorial (fosfatase alcalina bem elevada, transaminases normais e bilirrubina pouco alterada), você deve pensar em colangiopatia associada à AIDS. O ultrassom com vesícula dilatada e dilatação das vias biliares extra-hepáticas, sem cálculo ou obstrução mecânica, encaixa muito bem nesse quadro. Não é uma hepatite típica de vírus nem uma colecistite calculosa comum; aqui o problema costuma ser infeccioso e oportunista, atingindo a árvore biliar. O agente mais clássico é o Cryptosporidium, um protozoário oportunista que pode infectar o epitélio das vias biliares em pacientes imunossuprimidos. Ele provoca inflamação, espessamento e estenoses da árvore biliar, podendo gerar quadro de colangite esclerosante-like e, em alguns casos, papilite/estenose da ampola. Na prática, isso aparece como dor abdominal e exame de imagem com dilatação biliar sem obstrução evidente, exatamente a cara da questão. Em prova, a pista de ouro é o conjunto: HIV + colestase + imagem sem pedra. Quando a banca joga esse trio, costuma estar cobrando infecção oportunista das vias biliares. O tratamento envolve controle da imunossupressão com terapia antirretroviral e suporte; em casos selecionados, podem ser necessários procedimentos para desobstrução, mas o raciocínio principal da questão é etiológico. Por isso o gabarito é Cryptosporidium. Entre os oportunistas do HIV, ele é o mais associado a doença biliar e diarreia crônica, enquanto os outros agentes listados não explicam bem esse padrão de colangiopatia com dilatação sem sinal de obstrução mecânica.