Homem de 54 anos com diagnóstico de cardiomiopatia chagásica é submetido a estudo eletrofisiológico para ablação de taquicardia ventricular monomórfica sustentada, sem sucesso. Durante o procedimento, foi aventada possibilidade de taquicardia de origem epicárdica, o que justificaria o insucesso terapêutico. Assinale a opção que contém um critério eletrocardiográfico que corrobora a presença de taquicardia ventricular de origem epicárdica.
- A)Onda Q inicial em D1 em paciente com infarto prévio.
Onda Q em D1 pode sugerir cicatriz ou infarto prévio, mas não é um critério eletrocardiográfico específico de origem epicárdica da taquicardia.
- B)Deflexão intrinsecoide em V2 ≤ 100 ms.
Deflexão intrinsecoide em V2 menor ou igual a 100 ms não é o achado clássico associado a taquicardia ventricular epicárdica.
- C)Presença de pseudo-delta ≥ 34 ms.
Pseudodelta maior ou igual a 34 ms é um critério que favorece origem epicárdica da taquicardia ventricular, pois indica ativação inicial mais lenta.
- D)Complexo RS mais estreito ≤ 100 ms.
Complexo RS mais estreito ou igual a 100 ms vai contra os critérios de taquicardia ventricular de origem epicárdica, que costumam mostrar maior atraso de condução.
- E)Morfologia de bloqueio de ramo esquerdo.
Morfologia de bloqueio de ramo esquerdo sugere taquicardia ventricular, mas não basta para indicar origem epicárdica, porque é um padrão inespecífico.
Gabarito: C
Na taquicardia ventricular de origem epicárdica, o estímulo precisa percorrer mais tecido antes de chegar ao miocárdio ventricular e ao sistema His-Purkinje. Por isso, no ECG, os sinais de ativação inicial ficam mais “lentos” e “arrastados”, como se o impulso estivesse entrando pela porta dos fundos. Entre os critérios mais usados estão o pseudodelta, o tempo até o pico da onda R e a duração do complexo QRS. O pseudodelta corresponde ao intervalo entre o início do QRS e o começo da deflexão rápida do QRS, refletindo atraso na ativação inicial. Quando esse tempo é maior ou igual a 34 ms, isso favorece origem epicárdica da taquicardia ventricular. Em outras palavras, quanto mais demorada a despolarização inicial, maior a chance de o circuito estar fora do endocárdio. Isso é muito cobrado em cardiomiopatia chagásica, porque essa doença frequentemente produz cicatrizes inferolaterais e pode gerar taquicardias ventriculares com circuito epicárdico. Se a ablação endocárdica falha, pensar em foco epicárdico é exatamente o raciocínio esperado. Portanto, a alternativa correta é a C. Os demais itens trazem critérios que não definem origem epicárdica ou descrevem achados inespecíficos de outras situações.