Paciente do sexo feminino, 44 anos, com diagnóstico de cardiomiopatia dilatada sem etiologia definida, portadora de marca-passo bicameral por episódios de BAV 2:1 associados a pré-síncope. Procura atendimento por queixa de piora da classe funcional, ortopneia e edema de membros inferiores com piora há uma semana, associados a palpitações taquicárdicas. A descompensação da insuficiência cardíaca foi atribuída a episódios de fibrilação paroxística de início recente. Na interrogação por telemetria do dispositivo marca-passo, algumas alterações puderam ser observadas. Assinale a opção que apresenta um achado que não é compatível com o quadro da paciente.
- A)Episódios de mudança automática na programação (Mode switch).
Compatível, porque o mode switch é uma resposta automática do marca-passo quando detecta taquiarritmia atrial, como fibrilação atrial.
- B)Redução da medida de atividade diária.
Compatível, pois a piora da insuficiência cardíaca e da arritmia costuma reduzir a atividade diária registrada pelo dispositivo.
- C)Aumento da média de frequência ventricular.
Compatível, já que a fibrilação atrial pode elevar a frequência ventricular média e contribuir para a descompensação.
- D)Aumento do índice de fluido corporal.
Compatível, porque a congestão e a retenção de líquido tendem a aumentar o índice de fluido corporal monitorado pelo aparelho.
- E)Aumento da impedância torácica.
Incompatível, porque o aumento de líquido torácico reduz a impedância torácica; portanto, nessa situação, o esperado seria queda e não elevação.
Gabarito: E
Quando a paciente com marca-passo entra em fibrilação atrial paroxística, o dispositivo costuma registrar sinais bem típicos de descompensação: aumento da frequência ventricular, queda da atividade diária e, em muitos modelos, elevação do índice de fluido corporal. Isso faz sentido porque a arritmia piora o débito cardíaco e pode precipitar insuficiência cardíaca, com ortopneia e edema. Na telemetria, também é comum aparecer o "mode switch", que é a mudança automática do modo de estimulação para evitar que o átrio bagunce o funcionamento do aparelho durante a taquiarritmia. Em outras palavras, o marca-passo não está dormindo no ponto: ele percebe a arritmia e tenta se proteger dela. O ponto-chave da questão é que o aumento da congestão pulmonar e sistêmica tende a reduzir a impedância torácica, não a aumentá-la. Quanto mais líquido no tórax, menor a resistência elétrica medida entre os eletrodos. Por isso, um aumento da impedância torácica vai na direção oposta do esperado em descompensação por sobrecarga volêmica. É exatamente por isso que o gabarito é a letra E. Esse raciocínio é bem alinhado com a interpretação clínica dos dados de dispositivos implantáveis: eles podem ajudar a rastrear episódios de fibrilação atrial e sinais indiretos de piora hemodinâmica, especialmente em insuficiência cardíaca. Na prática, o conjunto de achados da telemetria conversa com o quadro da paciente, exceto a impedância torácica aumentada, que seria mais compatível com menos líquido, e não com mais congestionamento.