Paciente do sexo feminino, 39 anos, vítima de atropelamento, dá entrada na emergência acordada, orientada, hipocorada +/4+, com cianose de extremidades e referindo dor abdominal. PA: 93x65 mmHg, FC: 114 bpm, FR: 19 irpm, Sat O2: 98% com suplementação de oxigênio por máscara. Ao exame há equimose no flanco direito, dor abdominal difusa à palpação, com irritação peritoneal. Para esta paciente, assinale a afirmativa correta.
- A)O lavado peritoneal diagnóstico não pode ser realizado pela instabilidade hemodinâmica.
Errada: o lavado peritoneal diagnóstico pode ser realizado em paciente instável quando necessário, embora hoje seja menos usado que o FAST e a tomografia em situações selecionadas.
- B)A cirrose e a gestação são contraindicações absolutas para o lavado peritoneal diagnóstico.
Errada: cirrose e gestação não são contraindicações absolutas ao lavado peritoneal diagnóstico, podendo apenas dificultar a interpretação ou exigir cautela técnica.
- C)A tomografia computadorizada de abdome pode ser realizada, com a vantagem de avaliar lesões retroperitoneais.
Errada: a tomografia é exame para paciente hemodinamicamente estável e não deve ser priorizada na instabilidade; além disso, ela é ótima para retroperitônio, mas não é o primeiro passo neste cenário.
- D)A videolaparoscopia pode ser realizada, podendo evitar uma laparotomia.
Errada: videolaparoscopia pode ter papel diagnóstico/terapêutico em casos selecionados, mas não é a conduta padrão na paciente instável com peritonite e suspeita de sangramento importante.
- E)O FAST pode ser realizado e, caso seja negativo, não descarta lesões de vísceras maciças.
Certa: o FAST é útil na avaliação inicial do trauma, mas um resultado negativo não exclui lesões viscerais, inclusive de vísceras maciças, nem afasta completamente lesão abdominal relevante.
Gabarito: E
No trauma abdominal fechado, a prioridade é identificar rapidamente quem pode estar sangrando ou perfurando víscera. Em paciente com dor abdominal, irritação peritoneal e sinais de instabilidade hemodinâmica, o exame à beira-leito ganha muito valor, porque você não quer perder tempo com exames longos se a barriga já está gritando problema. O FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) é justamente isso: um ultrassom rápido para procurar líquido livre em peritônio e pericárdio. Ele ajuda muito na avaliação inicial, sobretudo quando o paciente está instável. Mas atenção: FAST positivo apoia fortemente lesão intra-abdominal com sangramento; FAST negativo não exclui lesão de vísceras maciças nem de víscera oca, especialmente no começo do quadro ou em sangramentos pequenos. Por isso, a alternativa E está correta. Ela traduz um ponto clássico de prova: o FAST é útil, mas não é teste de exclusão. Um exame negativo não “libera” o paciente se a clínica está ruim, porque o abdome manda mais que a imagem quando há peritonite e sinais de choque. Em termos práticos, o raciocínio segue a lógica do ATLS: exame clínico, estabilidade hemodinâmica e método complementar adequado. Se houver dúvida, a investigação continua, e muitas vezes a decisão é cirúrgica pela combinação de mecanismo, exame físico e condição hemodinâmica, não por um ultrassom tranquilizador demais.