Uma senhora de 82 anos, portadora de hipertensão arterial e apneia obstrutiva do sono, apresenta recidiva de fibrilação atrial (FA) paroxística, com queixa de palpitações frequentes. Já submetido a crioablação das veias pulmonares, tendo permanecido livre de arritmias por 6 anos. Ecocardiograma transtorácico revela diâmetro de átrio esquerdo = 48 mm, e função sistólica ventricular preservada em repouso. Atualmente em uso de propafenona, enalapril e edoxabana. Manifesta desejo de realizar nova tentativa de ablação, pois não deseja mais utilizar medicação antiarrítmica. Considerando as indicações de tratamento invasivo da fibrilação atrial, assinale a afirmativa correta.
- A)O retorno do ritmo sinusal após ablação é capaz de reverter a disfunção ventricular em pacientes com cardiopatia induzida por taquicardia.
Certa, porque a restauração do ritmo sinusal pode reverter a cardiomiopatia induzida por taquicardia e melhorar a função ventricular.
- B)A ausência de episódios de fibrilação atrial por 6 meses após ablação é suficiente para suspensão da anticoagulação oral com segurança desta paciente.
Errada, porque a anticoagulação não deve ser suspensa apenas pela ausência de FA após ablação; ela depende do risco tromboembólico.
- C)O benefício da ablação por cateter é maior para FA na forma persistente do que na forma paroxística.
Errada, porque a ablação costuma ter melhores resultados na FA paroxística do que na persistente.
- D)Quanto maior o tempo de duração da fibrilação atrial, maior a chance de sucesso com o procedimento.
Errada, porque quanto maior o tempo de duração da FA, menor tende a ser a chance de sucesso do procedimento.
- E)A ablação por cateter para tratamento da FA apresenta taxa de recidiva menor do que 1% em um ano.
Errada, porque a taxa de recidiva após ablação é muito maior do que 1% em um ano.
Gabarito: A
Na fibrilação atrial, a ablação por cateter entra como estratégia importante quando a pessoa tem sintomas apesar do tratamento, ou quando deseja evitar antiarrítmicos e é um caso com chance razoável de benefício. O raciocínio central é simples: se o ritmo volta a ser sinusal e a frequência e a irregularidade deixam de agredir o coração, alguns pacientes melhoram até a função ventricular, especialmente quando havia cardiomiopatia induzida por taquicardia. Isso acontece porque o ventrículo pode estar “cansado” de trabalhar em ritmo acelerado e desorganizado. No caso descrito, a paciente tem FA paroxística recorrente, sintomas frequentes e quer evitar nova medicação antiarrítmica, então uma nova tentativa de ablação é uma opção plausível. Porém, a resposta ao procedimento depende de vários fatores: idade, tamanho do átrio esquerdo, tempo de evolução da FA e comorbidades como apneia do sono e hipertensão. Quanto mais remodelado o átrio, menor tende a ser o sucesso. O item correto é o A porque a reversão do ritmo sinusal após ablação pode sim melhorar ou reverter a disfunção ventricular quando a causa é taquicardiomiopatia. Isso é bem aceito na prática cardiológica e nas diretrizes de FA: controlar o ritmo pode recuperar a função em quem tinha miocardiopatia induzida por arritmia. Atenção para um ponto clássico: ablação não costuma permitir suspender anticoagulação só porque o paciente ficou alguns meses sem crise. A decisão de anticoagular segue o risco tromboembólico, como CHA2DS2-VASc, e não apenas a aparente “calma” do ritmo.