Homem de 55 anos, tratado de hanseníase virchoviana com 12 doses supervisionadas (PQT/MB), regularmente tomando as doses auto-administradas, sem apresentar intercorrências. Recebeu alta, há 18 meses, apresentando lesões com aspecto involutivo disseminadas, grau de incapacidade (GI) = 0 e índice bacilocópico (IB) de esfregaço cutâneo de 5 locais = 2.5. Há 5 dias, desenvolveu lesões cutâneas nodulares, dolorosas à palpação, distribuídas em todo o tegumento, mais intensamente no terço inferior de ambas as pernas, com discreta artralgias, astenia e febre de 37,5oC. Realizada baciloscopia de 5 locais incluindo um dos nódulos com resultado do IB = 1.5. Assinale a opção que apresenta seu diagnóstico e conduta
- A)Diagnóstico de reação hansênica tipo 2, devendo ser submetido à avaliação neurológica simplificada e, na ausência de comprometimento neurólogico, introduzido no tratamento com talidomida, com revisão a cada 15 dias.
Correta: descreve reação hansênica tipo 2 e orienta avaliação neurológica com uso de talidomida quando não há comprometimento neural.
- B)Recidiva de Hanseníase Virchoviana devendo ser submetido a novo esquema poliquimioterápico (PQT/MB).
Errada: o quadro é de reação inflamatória aguda, não de recidiva de hanseníase virchoviana.
- C)Recidiva de Hanseníase Virchoviana com reação tipo 2 devendo ser submetido a tratamento antireacional com corticoterapia e reiniciar o tratamento especifico com a PQT/MBd. Suspeita de resistência medicamentosa a Dapsona devendo coletar material (biopsia).
Errada: mistura recidiva, reação tipo 2, corticoide e suspeita de resistência sem base clínica suficiente no caso.
- D)Suspeita de resistência medicamentosa a Dapsona devendo coletar material (biopsia cutânea) para biologia molecular e introduzir esquemas substitutivos com Ofloxacin no lugar da Dapsona.
Errada: não há elementos que sustentem resistência à dapsona, nem indicação de biologia molecular ou troca por ofloxacino.
- E)Nenhuma das alternativas acima.
Errada: há, sim, uma alternativa correta, pois o quadro clínico é compatível com reação hansênica tipo 2.
Gabarito: A
O quadro descreve uma reação hansênica tipo 2, também chamada eritema nodoso hansênico. Ela costuma aparecer em pacientes com hanseníase multibacilar, mesmo após a alta, como uma manifestação inflamatória aguda: nódulos dolorosos, febre baixa, mal-estar, artralgia e distribuição disseminada são bem típicos. Não é, por si só, sinônimo de recidiva. O fato de o paciente ter alta há 18 meses, sem intercorrência neurológica, com lesões involutivas e apenas discreta variação do índice baciloscópico não fecha recidiva nem resistência medicamentosa. Na reação tipo 2, a conduta depende da gravidade e da presença de neurite. Sempre vale fazer avaliação neurológica simplificada, porque hanseníase adora testar seus nervos periféricos em silêncio. Se não houver comprometimento neurológico e o quadro for leve a moderado, a talidomida é o tratamento de escolha, com acompanhamento periódico. Em homens, ela pode ser usada com mais segurança do que em gestantes, onde é absolutamente contraindicada por teratogenicidade clássica. A banca acertou ao cobrar exatamente essa distinção: reação hansênica não é recidiva. Recidiva exigiria evidências mais firmes de retorno da doença ativa, e não apenas um surto inflamatório doloroso. Também não há, no enunciado, elementos para sair reiniciando PQT/MB ou levantar bandeira de resistência à dapsona. Em resumo: o paciente parece estar em reação hansênica tipo 2, e a conduta proposta na alternativa A é a adequada.