Adolescente, sexo masculino, 14 anos, iniciou quadro de sonolência excessiva diurna há cerca de dois anos. Neste período, teve seis episódios em que dormia por, aproximadamente, 24 horas, por 15 dias consecutivos. Somente se levantava para comer e ir ao banheiro, com maior procura alimentar por doces e massas. Somava desinibição importante e mudança de vocabulário com palavras de baixo calão. Fora destes períodos, voltava ao normal. Assinale a opção que apresenta o diagnóstico mais provável.
- A)Transtorno obsessivo compulsivo.
Errada: transtorno obsessivo-compulsivo não explica crises de hipersonia, hiperfagia e desinibição com retorno ao normal entre episódios.
- B)Narcolepsia sem cataplexia.
Errada: narcolepsia causa sonolência diurna crônica, geralmente com cataplexia e outros fenômenos do sono, e não crises prolongadas e recorrentes como as descritas.
- C)Síndrome de Kleine Levin.
Certa: o quadro é típico da síndrome de Kleine-Levin, com hipersonia episódica, hiperfagia, desinibição e normalidade entre as crises.
- D)Doença de Fabry.
Errada: doença de Fabry é uma doença de depósito lisossômico com dor, angioceratomas e acometimento renal/cardiovascular, não esse padrão comportamental-somnolento.
- E)Transtorno alimentar relacionado com o sono.
Errada: transtorno alimentar relacionado com o sono não justifica a hipersonia intensa e os sintomas neurocomportamentais episódicos apresentados.
Gabarito: C
O quadro descrito é clássico de um transtorno raro do sono chamado síndrome de Kleine-Levin. Ela aparece mais em adolescentes, sobretudo meninos, e vem em crises recorrentes de hipersonia intensa: a pessoa dorme muitas horas, fica apática e praticamente some da rotina. O detalhe que chama atenção aqui é que, fora das crises, o paciente volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Além da sonolência absurda, a síndrome costuma trazer alterações comportamentais bem marcantes: hiperfagia, especialmente por doces e carboidratos, desinibição, irritabilidade, linguagem inadequada e, em alguns casos, comportamento confuso ou infantilizado. É quase um pacote de sintomas que entra e sai em episódios, o que ajuda muito na identificação. Por isso o gabarito é a letra C. Não é narcolepsia, porque na narcolepsia o problema é crônico e típico com sonolência diurna, muitas vezes com cataplexia, alucinações hipnagógicas ou paralisia do sono, e não com crises prolongadas de dias a semanas em que o paciente fica quase em hibernação. Aqui o padrão episódico com retorno completo ao basal é a pista de ouro. Em concursos, vale guardar essa associação: adolescente do sexo masculino + crises de hipersonia + hiperfagia + desinibição + normalidade entre os episódios = pense em Kleine-Levin. É uma dessas questões em que a banca praticamente grita o diagnóstico, só para ver quem percebe o conjunto da obra.