No 2º dia de pós-operatório de correção de tetralogia de Fallot, um paciente de 4 meses apresenta FC de 210 bpm. Não há febre. A gasometria arterial mostra acidose metabólica leve. O ecocardiograma não mostra CIV residual; há um gradiente anterógrado de 18mmHg na via de saída do VD e a função contrátil é satisfatória. Assinale a opção que indica o diagnóstico mais provável.
- A)Taquicardia sinusal.
Errada, porque taquicardia sinusal geralmente tem gatilho óbvio, como febre, dor, hipovolemia ou anemia, o que não é o caso descrito.
- B)Fibrilação atrial.
Errada, porque fibrilação atrial é rara em lactentes e não é a arritmia típica do pós-operatório precoce de correção de tetralogia de Fallot.
- C)Bloqueio atrioventricular.
Errada, porque bloqueio atrioventricular costuma causar bradicardia ou ritmo lento, e não taquicardia sustentada de 210 bpm.
- D)Síndrome pós-pericardiotomia.
Errada, porque a síndrome pós-pericardiotomia costuma aparecer com inflamação, febre e muitas vezes derrame pericárdico, o que não foi relatado.
- E)Taquicardia juncional ectópica.
Certa, porque a taquicardia juncional ectópica é uma arritmia clássica do pós-operatório precoce de cirurgia cardíaca pediátrica, especialmente em lactentes.
Gabarito: E
No pós-operatório de cirurgia de cardiopatia congênita, especialmente em correção de tetralogia de Fallot, uma taquicardia muito rápida em lactente acende uma luz amarela para arritmia juncional. A taquicardia juncional ectópica costuma aparecer nas primeiras 24 a 72 horas após a cirurgia, principalmente em crianças pequenas, e é famosa por ser uma taquiarritmia automática relacionada ao trauma cirúrgico e à irritabilidade do sistema de condução. Ela costuma cursar com FC alta, ritmo regular e, muitas vezes, dissociação entre átrios e ventrículos, podendo até piorar com catecolaminas, febre e distúrbios metabólicos. Neste caso, a pista forte é o contexto: 2º dia de pós-operatório de tetralogia de Fallot, lactente de 4 meses, FC de 210 bpm, sem febre e com ecocardiograma sem defeito residual importante. A função ventricular está boa, então o problema não parece ser baixo débito por falência da correção. A acidose metabólica leve pode ser consequência da taquiarritmia e da repercussão hemodinâmica, e não necessariamente a causa principal. Por isso, o diagnóstico mais provável é taquicardia juncional ectópica. Ela é clássica no pós-operatório de cirurgia cardíaca pediátrica e é uma das arritmias que mais caem em prova quando a banca mistura idade baixa, cirurgia recente e taquicardia importante sem febre. Na prática, o raciocínio é: pós-operatório precoce + lactente + taquicardia rápida + ausência de outra causa estrutural importante = pense em JET. As outras alternativas parecem sedutoras, mas não combinam bem com o cenário. Fibrilação atrial é bem menos comum em lactentes, bloqueio AV tenderia a bradicardia, taquicardia sinusal costuma ter causa clara como febre, dor ou hipovolemia, e síndrome pós-pericardiotomia costuma dar quadro inflamatório mais tardio, com febre e derrame pericárdico. Aqui, a FGV está cobrando exatamente o clássico do pós-operatório cardíaco pediátrico.