“A dor abdominal aguda é um desafio diagnóstico que requer avaliação sistemática e identificação de sinais de alarme” (UpToDate, 2024). Sobre as características da dor abdominal, analise as alternativas e assinale a correta:
- A)A dor abdominal em cólica é tipicamente associada a condições inflamatórias, como pancreatite, sendo incomum em obstruções intestinais.
Errada, porque dor em cólica é mais típica de obstrução de víscera oca, e não de pancreatite, que costuma causar dor contínua e inflamatória.
- B)A irradiação da dor abdominal para o ombro esquerdo é frequentemente associada a lesão diafragmática ou hemorragia intra-abdominal, como no caso de ruptura esplênica.
Certa, porque irritação diafragmática ou hemorragia intra-abdominal pode irradiar para o ombro esquerdo, como na ruptura esplênica.
- C)O diagnóstico diferencial de dor abdominal é simplificado pela localização anatômica da dor, sendo dispensável a complementação com exames de imagem em quadros agudos.
Errada, porque a localização ajuda, mas não simplifica o diagnóstico a ponto de dispensar imagem em quadros agudos quando necessário.
- D)A dor no quadrante inferior direito exclui patologias ginecológicas em mulheres, especialmente em ausência de sinais de gravidez ectópica.
Errada, porque mulheres com dor em quadrante inferior direito ainda podem ter causas ginecológicas, mesmo sem sinais de gravidez ectópica.
- E)A dor abdominal associada à peritonite é menos influenciada por movimentos, apresentando-se predominantemente como desconforto visceral difuso.
Errada, porque a peritonite costuma piorar com movimento e apresentar sinais de irritação peritoneal, e não desconforto visceral difuso menos influenciado por mobilização.
Gabarito: B
Na dor abdominal aguda, o segredo é não olhar só para “onde dói”, mas também para como dói, para onde irradia e o que piora ou alivia. Dor em cólica costuma sugerir contração de víscera oca, como em obstrução intestinal ou cólica biliar/renal, enquanto dor inflamatória tende a ser mais contínua e bem localizada. Na prática, a clínica manda muito, mas não manda sozinha: a avaliação precisa ser sistemática, porque a mesma região pode esconder diagnósticos bem diferentes. A alternativa correta é a B porque a irradiação da dor para o ombro esquerdo é um achado clássico de irritação diafragmática, especialmente quando há sangue ou líquido no andar superior do abdome. Isso acontece por estímulo do nervo frênico, com dor referida para o ombro. Um exemplo típico é a ruptura esplênica, em que a hemorragia intra-abdominal pode irritar o diafragma e produzir esse padrão. Esse tipo de detalhe é muito cobrado em cirurgia geral: dor no ombro não é “dor do ombro”, e sim dor referida. Então, quando a história sugere trauma, sangramento ou processo subdiafragmático, vale pensar em lesão do diafragma ou hemoperitônio. Em dor abdominal aguda, a semiologia continua sendo a melhor amiga do diagnóstico, antes mesmo de qualquer exame mais sofisticado. Por fim, lembre que peritonite costuma piorar com movimento, tosse e palpação, e não o contrário. Então, se a questão vier com esses truques, desconfie: a banca gosta de inverter conceitos clássicos para ver se você cai na armadilha.