Criança, 7 anos, sofreu queimadura acidental ao derrubar uma panela de água fervente sobre o braço direito e parte do tronco. Foi levada ao hospital duas horas após o acidente. Ao exame, apresenta lesões eritematosas, bolhas rompidas com exposição dérmica e áreas de palidez no braço e tórax. Não há lesões em outras partes do corpo. A avaliação inicial revela estado hemodinâmico estável, sem sinais de infecção ou outras complicações. O médico decide calcular a Superfície Corporal Queimada (SCQ) para planejar o manejo adequado. A criança pesa 25 kg e tem altura proporcional para a idade. Com base nesse caso hipotético, assinale a afirmativa correta.
- A)O débito urinário ideal para monitorar a hidratação nessa criança é de 0,5 ml/kg/h.
Errada, porque 0,5 ml/kg/h é meta urinária de adulto; em criança, o alvo costuma ser cerca de 1 ml/kg/h.
- B)A reposição volêmica deve ser iniciada com solução salina normal exclusivamente nas primeiras 24 horas.
Errada, porque a reposição volêmica não é feita com soro fisiológico exclusivamente, e a hidratação de queimados costuma seguir soluções balanceadas como Ringer lactato.
- C)A extensão da queimadura deve ser avaliada usando a “regra dos nove”, que é a mais precisa para calcular a SCQ em crianças.
Errada, porque a regra dos nove não é a mais precisa em crianças; o método de Lund e Browder é o mais adequado na faixa pediátrica.
- D)O manejo inicial adequado inclui antibióticos sistêmicos de rotina para prevenir infecção em todas as queimaduras de segundo grau.
Errada, porque antibiótico sistêmico de rotina não é indicado em queimaduras de segundo grau sem infecção comprovada.
- E)As lesões descritas são compatíveis com queimadura de espessura parcial profunda e podem necessitar de enxertia em casos graves.
Certa, porque a descrição é compatível com queimadura de espessura parcial profunda, que pode necessitar de enxertia em casos mais graves.
Gabarito: E
Em queimaduras, a primeira coisa é pensar em profundidade e extensão. A descrição do caso - lesões eritematosas, bolhas rompidas com exposição dérmica e áreas de palidez - aponta para queimadura de espessura parcial profunda, isto é, uma queimadura de segundo grau mais profunda, que pode comprometer a derme de forma importante e evoluir com cicatriz e perda de tecido. Isso acontece porque nem toda queimadura de segundo grau é igual: a superficial costuma ser mais dolorosa e rosada, enquanto a profunda pode ter palidez, pior perfusão local e menor capacidade de reepitelização. Quando a lesão é extensa ou profunda, o tratamento pode exigir acompanhamento especializado e, em casos graves, enxertia de pele. Portanto, a alternativa E está correta. Na criança, a estimativa da superfície corporal queimada não deve ser feita, de preferência, pela regra dos nove, porque ela é menos precisa em pediatria. O método mais usado para crianças é a tabela de Lund e Browder, que ajusta a proporção corporal conforme a idade. Além disso, a hidratação inicial em queimaduras extensas segue fórmulas como a de Parkland, sempre com ajuste pelo débito urinário e pela resposta clínica. Para não cair na armadilha, guarde a ideia central: queimadura com bolhas rompidas, exposição dérmica e áreas pálidas sugere profundidade maior do que uma lesão superficial. Em medicina de urgência, o detalhe da aparência da pele muda bastante a conduta, e aqui ele entrega o diagnóstico.