Mulher, 44 anos, procura atendimento ambulatorial de clínica médica, devido à dor de garganta há duas semanas; inquietação; ansiedade excessiva; insônia; palpitações e labilidade emocional. Refere há quatro semanas afastamento de suas atividades devido a quadro autolimitado de síndrome gripal. Nega outros antecedentes patológicos; nega uso de medicação regular; e, nega alergias. Ao exame físico: FC 110 bpm; FR 14 irpm; SatO2 96%; PA 140 x 70 mmHg; tremor fino de extremidade; ritmo cardíaco regular em 2T; ausência de sopros; murmúrios vesiculares em ambos hemitórax; ausência de ruídos adventícios. Traz consigo exames laboratoriais realizados na última semana: Hb 13; Ht 38%; Plaq 210 mil; Leuco 6.100; Cr 0,7; Ur 32; Na 136 K 4,7; Mg 1,8; Colesterol total 163; LDL 87; HDL 73; Triglicerídeos 110; HbA1C 5,4%; TSH 0,1; VHS 100 mm/h; PCR 1,0. Considerando o caso hipotético, o tratamento adequado é:
- A)Sertralina e alprazolam.
Errada: sertralina e alprazolam podem até aliviar ansiedade, mas não tratam a causa do quadro, que é inflamatória e tireoidiana.
- B)Prednisona e metimazol.
Errada: prednisona pode ser usada em casos selecionados de tireoidite subaguda, mas metimazol não é indicado porque a doença não é por hiperprodução de hormônio.
- C)Propranolol e cetoprofeno.
Certa: propranolol controla os sintomas adrenérgicos e cetoprofeno ajuda na dor e inflamação da tireoidite subaguda.
- D)Metoprolol e propiltiouracil.
Errada: metoprolol pode ajudar na taquicardia, mas propiltiouracil não é o tratamento adequado nesse contexto de tireoidite subaguda pós-viral.
Gabarito: C
O caso é bem típico de tireoidite subaguda de Quervain, que costuma aparecer depois de uma infecção viral e vem com dor cervical ou de garganta, palpitações, tremor, ansiedade, insônia e perda do “freio” da tireoide por um tempo. O TSH baixo, somado ao VHS muito elevado, aponta para um processo inflamatório na tireoide, e não para um hipertiroidismo por produção excessiva sustentada de hormônio. O detalhe importante é que, nessa fase inicial, o tratamento é de suporte: controlar os sintomas adrenérgicos e aliviar a dor/inflamação. Por isso, a combinação com propranolol e cetoprofeno faz sentido. O propranolol ajuda nas palpitações, tremor e ansiedade, enquanto o cetoprofeno atua como anti-inflamatório e analgésico, que é exatamente o que costuma ser necessário na tireoidite subaguda. Em muitos casos, anti-inflamatórios não esteroides já bastam; se a dor for importante ou persistente, corticosteroides podem ser usados. O ponto-chave é não tratar como doença de Graves nem sair “atacando” a tireoide com antitireoidiano sem necessidade. Na tireoidite subaguda, o problema inicial não é excesso de síntese hormonal, mas liberação de hormônio por inflamação da glândula. Por isso, drogas como metimazol ou propiltiouracil geralmente não resolvem o quadro. Essa lógica é clássica em clínica e cai bastante em prova. Resumo de prova: após quadro viral, dor em região cervical, hipertireoidismo transitório, TSH baixo e VHS alto, pense em tireoidite subaguda e trate com beta-bloqueador + anti-inflamatório. É o tipo de caso em que o remédio certo parece simples, mas a pegadinha é querer usar antitireoidiano por reflexo.