As dificuldades para estabelecer os padrões eletrocardiográficos normais das crianças decorrem de uma série de aspectos, que devem ser sempre considerados na análise do ECG pediátrico. Uma das variáveis que sempre deve ser considerada é a idade da criança. De acordo com as orientações das III Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos, sobre o eletrocardiograma na população pediátrica, assinale a afirmativa correta.
- A)No situs solitus, o eixo da onda “P” está ao redor de + 120°.
Errada: no situs solitus, o eixo da onda P não fica ao redor de +120°, pois isso sugere desvio importante e não o padrão habitual esperado.
- B)A presença de onda “q” em V1 deve ser considerada fisiológica.
Errada: onda q em V1 não é considerada fisiológica; em geral, esse achado em V1 chama atenção para anormalidade ou erro de posicionamento.
- C)A onda “q” está presente em V6 na maior parte das crianças com idade superior a um mês.
Certa: em crianças com mais de um mês, a onda q em V6 é frequente e pode ser normal, especialmente pela despolarização septal e ventricular esquerda.
- D)Nas primeiras quarenta e oito horas de vida, a onda “T” costuma ser negativa em V1, tornando-se positiva depois de três a sete dias.
Errada: a onda T em V1 não costuma seguir esse padrão descrito; a adaptação pós-natal ocorre muito cedo e não dessa forma temporal apresentada.
Gabarito: C
No ECG pediátrico, a idade pesa muito porque o coração da criança não “nasce pronto” do ponto de vista elétrico. Nos primeiros meses e anos de vida, há mudanças normais de eixo, de forças ventriculares e do padrão da onda T, então o que seria estranho em um adulto pode ser normal na criança. A alternativa correta é a letra C. Nas crianças com mais de um mês, a onda q em V6 costuma estar presente na maioria dos casos e pode ser um achado fisiológico, ligado ao vetor normal de despolarização septal e ventricular esquerda. As III Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos reforçam justamente essa leitura pediátrica mais cuidadosa, baseada na idade. Já na interpretação das derivações precordiais, o pediatra e o examinador precisam lembrar que alguns achados têm comportamento típico por faixa etária. O padrão da onda T em V1, por exemplo, sofre mudança precoce após o nascimento, e a presença de q em V1 não entra na lista dos achados normais esperados. Resumo prático: em ECG de criança, não leia com “olhar de adulto”. A idade manda, o desenvolvimento manda e a norma pediátrica evita falso alarme e susto desnecessário.