Em uma unidade de alojamento conjunto, o médico pediatra é chamado para avaliar um recém-nascido com desconforto respiratório. Nasceu há cerca de três horas, gestação sem intercorrências, IG 37 s2d, parto cesárea, adequado para idade gestacional, Apgar 9/9, líquido amniótico claro. Iniciou taquipneia (FR 90 irpm), com retrações subcostais, batimento de asa nasal e gemência, em ausculta pulmonar não apresenta crepitações. Em avaliação radiológica apresenta hiperinsuflação pulmonar e infiltrado difuso. Assinale, a seguir, a principal hipótese diagnóstica.
- A)Doença da membrana hialina.
Errada, porque a doença da membrana hialina é típica de prematuros e de deficiência de surfactante, não de RN a termo/quase termo com esse contexto de cesárea.
- B)Síndrome de aspiração meconial.
Errada, porque a síndrome de aspiração meconial depende de líquido amniótico meconial, o que não ocorreu neste caso.
- C)Taquipneia transitória do recém-nascido.
Certa, porque o quadro precoce após cesárea, com taquipneia, gemência e radiografia com hiperinsuflação, é típico de taquipneia transitória do recém-nascido.
- D)Hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido.
Errada, porque a hipertensão pulmonar persistente costuma cursar com hipoxemia importante e maior gravidade clínica, além de não ser a hipótese mais sugerida pela radiografia descrita.
Gabarito: C
Neste caso, o quadro aponta para uma causa muito comum de desconforto respiratório no recém-nascido termo ou quase termo: a taquipneia transitória do recém-nascido. Ela costuma aparecer nas primeiras horas de vida, especialmente após cesárea, porque o pulmão demora um pouco mais para “secar” o líquido fetal que deveria ser reabsorvido ao nascimento. Por isso, o bebê faz taquipneia, retrações e às vezes gemência, mas geralmente não tem um pulmão tão “doente” quanto nas outras síndromes e o exame costuma melhorar com o tempo e suporte clínico. O detalhe que ajuda bastante aqui é a ausência de crepitações e a radiologia com hiperinsuflação e infiltrado difuso, achado bem compatível com retenção de líquido pulmonar. A cesárea é um fator clássico, porque reduz a compressão torácica do parto vaginal e atrasa a depuração desse líquido. Ou seja: o bebê nasceu bem, logo começou a respirar rápido e o pulmão ainda está “enchendo de trabalho” para retirar o excesso de líquido. A doença da membrana hialina costuma ocorrer mais em prematuros e com importante déficit de surfactante, enquanto a síndrome de aspiração meconial exige líquido meconial e costuma ter mais alteração auscultatória e radiológica heterogênea. Já a hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido costuma dar hipoxemia importante e sofrimento respiratório mais grave, geralmente com sinais de shunt e instabilidade maior. Então, pelo início precoce, cesárea, líquido amniótico claro, ausência de crepitações e padrão radiológico descrito, a principal hipótese é taquipneia transitória do recém-nascido. É aquela situação em que o pulmão ainda está fazendo a faxina do pós-parto, sem querer colaborar no ritmo da respiração.