Paciente, 20 dias de vida, nascido de parto normal em domicílio, foi levado à emergência do pronto socorro, pois mãe observou que filho "apresenta sudorese e fica cansado principalmente às mamadas". Refere também que, "parece estar um pouco roxinho". Nega febre e outras queixas. Durante o atendimento, mãe oferta seio materno e o médico observa cianose leve, taquipneia e cansaço. No exame físico, também avalia presença de sopro diastólico e sopro sistólico. Solicitado eletrocardiograma que evidencia sobrecarga biventricular. Qual o provável diagnóstico?
- A)Atresia Tricúspide.
Errada, porque a atresia tricúspide costuma cursar com cianose e hipoplasia de ventrículo direito, mas não explica tão bem a presença de sopros sistólico e diastólico com sobrecarga biventricular.
- B)Atresia Pulmonar.
Errada, pois a atresia pulmonar provoca cianose importante por ausência de fluxo pulmonar direto, geralmente com outro padrão hemodinâmico e sem a combinação típica de hiperfluxo e insuficiência cardíaca precoce vista aqui.
- C)Drenagem anômala total de veias pulmonares.
Errada, porque a drenagem anômala total de veias pulmonares também é cianótica e neonatal, mas o achado clássico é retorno venoso pulmonar anormal, não um quadro com sopros compatíveis com tronco arterial único.
- D)Tetralogia de Fallot.
Errada, já que a tetralogia de Fallot costuma dar cianose, mas o sopro sistólico e o padrão clínico são diferentes, geralmente sem insuficiência cardíaca tão precoce como neste caso.
- E)Tronco Arterioso.
Certa, porque o tronco arterioso causa mistura de sangue, cianose neonatal, sinais de insuficiência cardíaca precoce e sobrecarga biventricular no ECG.
Gabarito: E
Neste caso, o quadro é de cardiopatia congênita cianótica com insuficiência cardíaca precoce: bebê com 20 dias, sudorese às mamadas, cansaço, taquipneia e cianose. Quando o recém-nascido já sofre para mamar e fica “roxinho”, pense em defeito cardíaco importante, e não em um resfriado teimoso. O exame físico com sopro sistólico e diastólico também aponta para lesão estrutural com mistura de fluxos e grande repercussão hemodinâmica. O diagnóstico mais provável é o tronco arterioso. Nessa malformação, existe um único grande vaso saindo do coração, em vez da separação normal entre a aorta e a artéria pulmonar. Isso faz sangue oxigenado e não oxigenado se misturarem, levando a cianose logo no período neonatal e sinais de hiperfluxo pulmonar e insuficiência cardíaca muito cedo. O sopro sistólico e o diastólico podem aparecer por turbulência do fluxo através da valva truncal e pelo grande débito pulmonar. No eletrocardiograma, a sobrecarga biventricular é compatível com a sobrecarga de ambos os ventrículos, já que os dois acabam participando do bombeamento para o mesmo tronco arterial comum. Em prova, a pista de ouro é a associação de cianose neonatal + insuficiência cardíaca precoce + sopros múltiplos. Em cardiologia pediátrica, quando o bebê começa a “reclamar” nas mamadas muito cedo, a banca costuma estar mirando uma cardiopatia congênita complexa, e o tronco arterioso é o clássico desse pacote.