Neonato, 22 dias de vida, masculino, sendo submetido eletivamente a correção de hérnia inguinal encarcerada. O anestesista propôs como tática anestésica indução inalatória com sevoflurano e manutenção em respiração espontânea com sistema de Mapleson A, associada a bloqueio de parede abdominal com anestésico local. Durante o procedimento, observa hipotensão arterial refratária, ainda que reduzindo a fração ofertada de halogenado, otimizando a oferta hídrica e excluindo causas hipovolêmicas ou mal posicionamento das vias aéreas, mantendo a criança com driver respiratório satisfatório e boa oxigenação. Tendo conhecimento da fisiologia neonatal, assinale a possível causa da hipotensão refratária neste caso.
- A)Alterações da frequência respiratória durante a ventilação espontânea.
Errada: alterações da frequência respiratória por si só não explicam hipotensão refratária quando a ventilação está espontânea, com boa oxigenação e sem falha ventilatória.
- B)Aumento da complacência ventricular.
Errada: no neonato a complacência ventricular é menor, não maior, o que limita a adaptação hemodinâmica e favorece queda de pressão.
- C)Estimulação simpática.
Errada: estimulação simpática tende a elevar frequência cardíaca e pressão arterial, não provocar hipotensão refratária.
- D)Choque hipovolêmico induzido por halogenado.
Errada: o enunciado já afasta hipovolemia, que seria uma causa de choque, mas não a explicação mais provável neste cenário.
- E)Estimulação vagal.
Certa: o neonato tem tônus vagal alto e pode apresentar bradicardia e hipotensão por reflexo vagal durante a manipulação cirúrgica, sobretudo em procedimentos inguinais.
Gabarito: E
No neonato, a circulação e o débito cardíaco dependem muito mais da frequência cardíaca do que do aumento do volume sistólico. Isso acontece porque o miocárdio neonatal tem menor reserva contrátil e menor capacidade de variar o débito quando o anestésico ou um estímulo cirúrgico bagunça a hemodinâmica. Ou seja, se a frequência cai, a pressão despenca rápido. Em cirurgias de abdome e região inguinal, especialmente em lactentes pequenos, a manipulação pode desencadear reflexo vagal, com bradicardia e hipotensão. Como o caso já exclui hipovolemia, problema de via aérea e mantém boa oxigenação, a causa mais provável da hipotensão refratária é a estimulação vagal. Na prática, o neonatologista e o anestesista vivem esse detalhe: o bebê descompensa com facilidade quando o tônus vagal domina, e o halogenado ainda pode piorar a resposta cardiovascular.