Criança de 8 anos de idade, branca, sexo feminino, foi levada pela mãe para consulta de rotina na unidade básica de saúde (UBS). No exame físico, a menina encontrava-se bem, eutrófica, normocorada e com desenvolvimento neuropsicomotor adequado. Ausculta cardíaca e respiratória normais. Vacinação em dia e alimentação relatada como diversa e adequada. A mãe solicitou ao médico um hemograma completo, para saber se a filha estava anêmica, e informou que a filha faz esse exame rotineiramente por orientação de médico anterior que atendia a criança. O resultado do último exame do ano anterior mostrou Hb = 12,5. A respeito desse caso clínico, assinale a opção correta, referente à conduta mais adequada.
- A)Dada a falta de evidências e de protocolos que indiquem o rastreamento populacional de anemias na idade da paciente, a solicitação do hemograma completo pode ser considerada desnecessária.
Certa: em criança assintomática e sem fatores de risco, não há recomendação de rastreamento populacional rotineiro de anemia, então o hemograma pode ser dispensado.
- B)Deve ser solicitado hemograma para investigação de anemia, devido ao resultado anterior, que indica anemia leve, pela faixa etária, que seria Hb acima de 13,0.
Errada: Hb 12,5 g/dL não indica anemia para essa paciente, e não há base para considerar anemia leve nem para pedir hemograma por esse motivo.
- C)Deve-se prescrever sulfato ferroso, em dose profilática de 1 mg/kg/dia, para manutenção do estoque de ferro da menina, devido à proximidade do início dos ciclos menstruais.
Errada: sulfato ferroso profilático não deve ser prescrito apenas pela proximidade da menarca, sem sinais de deficiência ou risco aumentado.
- D)Devem ser solicitados, além do hemograma, dosagem de ferro, parasitológico de fezes e urina EAS, para o rastreamento de anemia ferropriva e suas principais causas.
Errada: exames complementares em bloco, sem suspeita clínica de anemia ou causa específica, não são a conduta adequada na APS.
- E)Deve ser encaminhada a criança à hematologia, uma vez que é atribuição do especialista a investigação de doenças hematológicas; a atribuição da estratégia saúde da família (ESF) é prevenir doenças e promover saúde.
Errada: a investigação inicial de um possível problema hematológico não é prerrogativa exclusiva da hematologia; a APS deve avaliar e conduzir casos simples.
Gabarito: A
Em criança assintomática, com exame físico normal, crescimento e desenvolvimento adequados e alimentação boa, não existe boa razão para sair pedindo hemograma “de rotina” só para ver se há anemia. A lógica da Atenção Primária é rastrear quando há benefício comprovado, e rastreamento populacional de anemia nessa faixa etária, sem fatores de risco ou sinais clínicos, não é recomendado de forma geral. Em outras palavras: exame laboratorial não é suvenir de consulta, ele precisa ter indicação. Neste caso, a menina tem 8 anos, está bem, normocorada e com vacinação e alimentação em dia. O hemograma anterior mostrou Hb 12,5 g/dL, valor compatível com normalidade para a idade, então isso não sugere anemia. Hemoglobina abaixo de 13 g/dL não define anemia em criança escolar de forma automática; os pontos de corte variam com idade, sexo e contexto clínico. Também não há motivo para sulfato ferroso profilático só porque “logo vai menstruar”, já que menarca ainda não é indicação isolada para ferro, muito menos com criança assintomática e sem evidência de deficiência. E pedir uma bateria de exames de rastreio, como ferro sérico, parasitológico e EAS, sem suspeita clínica, costuma virar caça ao mosquito com canhão. Por isso, a conduta mais adequada é reconhecer que o hemograma solicitado é desnecessário no momento. Na APS, o médico de família age com racionalidade clínica: pergunta, examina, identifica risco e só depois solicita exame. Isso está muito alinhado com os princípios do SUS e com a prática baseada em evidências.