Paciente do sexo masculino, com 10 anos de idade, compareceu a uma consulta neuropediátrica indicada pela escola, uma vez que a criança vinha apresentando dificuldades escolares, como lentidão na escrita e na leitura de textos simples, trocas de letras com sons e grafias parecidas, dificuldade em soletrar, dificuldade no reconhecimento de palavras, inversão de letras e problemas de memorização. Foram realizados testes de consciência fonética sugestivos de dislexia na criança, e a mãe entregou uma ressonância magnética cerebral (RMC) de seu filho mais velho, com 12 anos de idade, que mostrava um cisto de aracnoide em região temporal e uma calcificação inespecífica em fossa posterior. Como medida educativa, o neuropediatra fez vários comentários em relação à dislexia. Considerando a situação clínica hipotética apresentada e os múltiplos aspectos a ela relacionados, assinale a opção correta.
- A)A dislexia não possui etiologia familiar e hereditária.
Errada, porque a dislexia pode sim apresentar agregação familiar e componente hereditário importante.
- B)A mãe deve ser informada que, no caso em tela, o cisto de aracnoide deve ser o causador da dislexia.
Errada, porque um cisto aracnoide incidental em geral não é a causa da dislexia e não se conclui isso apenas pela imagem.
- C)A dislexia é mais frequente no sexo feminino.
Errada, porque a dislexia é mais frequente no sexo masculino do que no feminino, embora possa acometer ambos.
- D)Para diagnosticar uma criança com dislexia, é mandatória a realização de processamento auditivo central.
Errada, porque processamento auditivo central não é exame mandatário para diagnosticar dislexia; o diagnóstico é clínico e neuropsicológico.
- E)Em indivíduos com capacidade cognitiva normal, a dislexia não é fruto de distúrbios sensoriais, distúrbios de desenvolvimento em geral ou de escolarização inadequada.
Certa, porque em criança com capacidade cognitiva normal a dislexia não deve ser atribuída a distúrbios sensoriais, atraso do desenvolvimento geral ou escolarização inadequada.
Gabarito: E
A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem, com base neurobiológica, que afeta principalmente a leitura, a escrita e, muitas vezes, a soletração e a consciência fonológica. O quadro costuma aparecer justamente como a questão descreve: lentidão para ler, trocas de letras, dificuldade para reconhecer palavras e problemas de memorização de material escrito. Não é falta de esforço, nem “preguiça”, nem sinal de baixa inteligência. O ponto central é que, em uma criança com cognição preservada, a dislexia não deve ser explicada por outros fatores mais gerais, como distúrbios sensoriais, atraso global do desenvolvimento ou escolarização inadequada. Esses fatores precisam ser descartados porque, se forem a causa principal, o diagnóstico de dislexia não se sustenta. Por isso, a alternativa E está correta: ela descreve a lógica diagnóstica de exclusão de outras explicações para o desempenho escolar alterado. Outro detalhe importante é que a dislexia pode ter forte componente familiar e hereditário, então não faz sentido dizer que ela não possui etiologia familiar. Além disso, exames de imagem, como a ressonância magnética, não são usados para “confirmar” dislexia, porque o diagnóstico é clínico e neuropsicológico, baseado na história e no perfil de aprendizagem. Alterações incidentais, como cisto aracnoide, geralmente não explicam o quadro. Na prática, a banca gosta de misturar dificuldade de aprendizagem com lesão estrutural no cérebro para ver se você cai na armadilha. Aqui, o raciocínio correto é: criança com inteligência normal, dificuldade específica e padrão típico de leitura/escrita aponta para transtorno específico de aprendizagem, não para uma causa sensorial ou escolar mal resolvida.