As doenças infecciosas do sistema nervoso são causas de morbimortalidade na faixa etária pediátrica. A avaliação rápida e precisa pode ser determinante para o melhor prognóstico. No que diz respeito à avaliação liquórica desses pacientes, assinale a opção correta.
- A)Há contraindicação relativa de punção lombar em paciente séptico ou hipotenso bem como em paciente que apresente nível de rebaixamento de consciência compatível com uma escala de coma de Glasgow menor ou igual a 8.
Correta: septicemia, hipotensão e rebaixamento importante do nível de consciência são situações em que a punção lombar deve ser adiada até estabilização clínica, por ser uma contraindicação relativa.
- B)Caso ocorra crise epiléptica, faz-se necessário aguardar 24 horas para a realização de punção lombar.
Errada: crise epiléptica isoladamente não impõe aguardar 24 horas para punção lombar; a decisão depende do estado clínico e da segurança do procedimento.
- C)Líquor xantocrômico em recém-nascidos a termo e prematuros é uma alteração que se restringe à ocorrência de meningite bacteriana e viral.
Errada: líquor xantocrômico em recém-nascidos pode ocorrer por outras causas, como sangramento, hiperbilirrubinemia e trauma de punção, não apenas por meningite.
- D)A proteinorraquia sempre está relacionada a um processo inflamatório subjacente, isto é, a processos infecciosos e autoimunes.
Errada: proteinorraquia pode ocorrer em muitas situações, inclusive bloqueio liquórico, hemorragia subaracnoidea e outras condições, não sendo exclusiva de processo inflamatório.
- E)É absolutamente contraindicada a realização de punção lombar em pacientes portadores de plaquetopenia 1,4, pois, nesses casos, o risco de sangramento e do surgimento de hematoma é muito grande e, portanto, deve-se iniciar tratamento adequado empírico.
Errada: plaquetopenia e coagulopatia aumentam o risco de sangramento, mas a conduta não é uma contraindicação absolutamente rígida em todos os cenários; exige avaliação clínica e correção quando possível.
Gabarito: A
Na avaliação de meningite e outras infecções do SNC em pediatria, a punção lombar é uma ferramenta central, porque o líquor costuma “contar a história” da inflamação bem antes de outros exames. Mas nem todo paciente pode ir direto para a punção: primeiro você olha estabilidade hemodinâmica, nível de consciência e sinais de hipertensão intracraniana, porque o procedimento pode piorar um quadro já grave. É por isso que a alternativa A está correta. Em paciente séptico ou hipotenso, a punção lombar é uma contraindicação relativa, pois a prioridade é estabilizar o doente antes de coletar o líquor. O mesmo raciocínio vale para rebaixamento importante do sensório, como Glasgow menor ou igual a 8, em que há risco de herniação ou de o paciente não tolerar a investigação imediata. Na prática, isso não significa “jamais puncionar”, e sim “não puncionar de forma automática e precipitada”. Em pediatria, o manejo deve ser rápido, mas não apressado: se houver instabilidade, corrige-se primeiro o que ameaça a vida e depois se volta ao líquor. Esse é um cuidado clássico ensinado em neurologia infecciosa e alinhado à lógica clínica das contraindicações relativas da punção lombar. As demais alternativas escorregam em absolutismos: crise convulsiva não obriga esperar 24 horas, xantocromia não é exclusiva de meningite bacteriana ou viral, proteinorraquia não é sinônimo automático de inflamação, e coagulopatia exige avaliação do risco-benefício, não regra fixa de “proibido em qualquer caso”.