Paciente masculino, 28 anos, doutorando em engenharia, busca atendimento por procrastinação grave com risco de desligamento do programa de Pós-Graduação. Menciona passar 6-8 horas diárias, alternando entre sites de apostas esportivas, conteúdo pornográfico e compras online, especialmente durante madrugadas. Acumulou dívidas significativas, prejudicou relacionamento estável e não consegue avançar na tese há 8 meses. Tentativas de controle são seguidas por períodos de intensificação do comportamento. Apresenta humor preservado, ausência de sintomas psicóticos e adequada capacidade intelectual. Considerando a complexidade do quadro apresentado e a necessidade de intervenções em múltiplos níveis, a abordagem terapêutica inicial mais apropriada é
- A)iniciar estabilizador do humor com evidência nível A para comportamentos impulsivo-compulsivos, como valproato ou topiramato, associado a monitorização sistemática dos comportamentos-alvo por meio de escalas validadas.
Errada, porque estabilizadores do humor não são tratamento inicial padrão para comportamentos aditivos sem substância e o enunciado não sugere transtorno bipolar.
- B)priorizar abordagem jurídica com medida protetiva de interdição parcial para gestão financeira, associada a programa especializado em ludopatia e bloqueio supervisionado de acesso a sites de apostas.
Errada, porque medida jurídica pode ser útil em casos extremos de incapacidade ou risco patrimonial, mas não é a abordagem terapêutica inicial e não substitui tratamento clínico e psicossocial.
- C)estabelecer programa com terapia cognitivo-comportamental, técnicas de gestão de tempo, controle de estímulos digitais, metas graduais monitoradas e orientação financeira, adotando manejo farmacológico auxiliar conforme avaliação individualizada.
Certa, porque reúne psicoterapia cognitivo-comportamental, controle de estímulos, metas graduais, monitoramento e orientação financeira, que são pilares iniciais do manejo.
- D)implementar tratamento farmacológico com inibidor de recaptação de serotonina, atentando para evidências de disfunção em circuitos fronto-estriatais comuns ao espectro obsessivo-compulsivo e comportamentos aditivos sem substância.
Errada, porque ISRS não são primeira linha para esse quadro de dependência comportamental e a justificativa neurobiológica não define sozinha a conduta inicial.
- E)estabelecer psicoterapia de orientação psicodinâmica focada nos aspectos defensivos da procrastinação e padrões relacionais disfuncionais, desenvolvendo insight sobre os comportamentos aditivos como sintomas de conflitos subjacentes.
Errada, porque psicoterapia psicodinâmica pode até ter espaço em alguns contextos, mas não é a melhor escolha inicial quando há compulsão com prejuízo funcional e necessidade de intervenção comportamental estruturada.
Gabarito: C
O quadro descreve um comportamento aditivo sem substância, com perda de controle, prejuízo funcional importante e repetição apesar das consequências negativas. Aqui o foco inicial não é "apagar incêndio" com remédio forte, e sim montar um plano de tratamento multimodal, porque esse tipo de problema costuma envolver gatilhos, rotina desorganizada, impulsividade e prejuízo financeiro e social. Na prática, a primeira linha costuma ser psicoterapia, especialmente terapia cognitivo-comportamental, associada a técnicas de controle de estímulos, organização da rotina, metas graduais e monitoramento dos comportamentos-alvo. Em casos com impacto financeiro, social ou familiar, entra também orientação financeira e manejo do ambiente digital, como bloqueio de acesso e redução de gatilhos. O raciocínio é bem "pé no chão": se o comportamento acontece de madrugada, com reforço imediato e ciclo de intensificação, você precisa atacar o hábito e o contexto, não só o sintoma isolado. O gabarito C está correto porque traduz exatamente essa abordagem inicial por múltiplos níveis: psicoterapia estruturada, manejo comportamental, controle de estímulos e suporte prático. Medicamentos podem até ser considerados de forma adjuvante, conforme comorbidades como ansiedade, depressão, TDAH ou compulsividade, mas não são a medida inicial universal. Em temas de dependência comportamental, a literatura e diretrizes clínicas favorecem intervenções psicossociais como base do tratamento. As alternativas com tom de "resolver com remédio" ou com medida jurídica isolada costumam ser armadilhas de prova. O paciente pode precisar de apoio financeiro e familiar, sim, mas isso entra como parte do plano, não substitui a intervenção terapêutica estruturada. E, apesar de o caso envolver jogo, pornografia e compras, o núcleo da conduta é o padrão compulsivo com prejuízo funcional, que pede manejo comportamental e acompanhamento longitudinal.