Homem de 70 anos, viúvo, aposentado e alcoolista diário, vai à consulta médica para acompanhar Hipertensão Arterial Sistêmica e Diabetes anteriormente conhecidas e controladas. Durante a consulta, fica evidente humor deprimido constante, fala em volume baixo e pouco espontâneo. Relata perda do interesse na convivência com os netos e nos jogos de futebol que costuma acompanhar, insônia intermediária, perda de peso involuntária por redução do apetite, e ideias de que é um fardo para a família. Tem ideia de morte, achando que pode ser um alívio, inclusive com pensamentos sobre suicídio, mas sem planejamento no momento. Qual a opção correta em relação ao manejo do paciente no contexto descrito acima?
- A)O uso de antidepressivo tricíclico deve ser evitado pelo risco de morte em caso de ingestão em grande quantidade.
Certa, porque antidepressivos tricíclicos têm alta toxicidade em superdosagem e devem ser evitados em pacientes com risco suicida.
- B)O médico deve evitar o uso de Inibidor de Recaptação de Serotonina, pela possibilidade do aumento de risco de suicídio.
Errada, pois os ISRS não são evitados por aumentar suicídio em idosos; em geral, são opções mais seguras que os tricíclicos.
- C)Como perguntar sobre ideias de suicídio pode induzir ou aumentar o risco de tentativa, tal questionamento deve ser evitado.
Errada, porque perguntar diretamente sobre ideação suicida não induz suicídio e é parte essencial da avaliação de risco.
- D)O grau de preocupação é baixo e a intervenção médica deve ser pouco invasiva, pois o paciente está fora da faixa etária de maior incidência de suicídio.
Errada, porque a idade avançada não reduz a gravidade do caso e o idoso tem risco relevante de suicídio, exigindo avaliação séria.
Gabarito: A
O caso descreve um episódio depressivo maior com ideação suicida em um homem idoso, com vários sinais de gravidade: humor deprimido, anedonia, insônia, perda de peso, culpa, desesperança e pensamentos de morte. Nessa situação, a conduta exige atenção ativa ao risco de suicídio, avaliação cuidadosa e escolha de tratamento que leve em conta segurança, especialmente porque o paciente já verbaliza ideias suicidas. Entre os antidepressivos, os tricíclicos precisam ser evitados ou usados com muita cautela em pacientes com risco de autoextermínio, porque são muito tóxicos em superdosagem. Em outras palavras: o remédio pode ser útil para depressão, mas vira uma má ideia quando a chance de ingestão em grande quantidade existe, já que uma overdose pode ser fatal por arritmias, depressão do SNC e outras complicações. Por isso, a alternativa A está correta. Em paciente com ideação suicida, a escolha do antidepressivo deve considerar perfil de segurança, preferindo fármacos menos letais em overdose e associando monitoramento próximo, envolvimento da família e avaliação psiquiátrica. O tema também conversa com a lógica do cuidado em saúde mental e da proteção à vida, que orienta a abordagem clínica e, quando necessário, encaminhamento urgente. Já a ideia de que perguntar sobre suicídio "coloca a ideia na cabeça" é mito antigo. Na prática, perguntar de forma direta e acolhedora ajuda a identificar risco, abre espaço para cuidado e não aumenta, por si só, a chance de tentativa.