A deglutição é um processo complexo e vital que envolve estruturas correlacionadas entre si e com mecanismos neuronais. Alterações na neurofisiologia da deglutição ocasionam a disfagia, caracterizada como dificuldade na preparação do bolo alimentar ou em seu deslocamento até o estômago. No ambiente hospitalar, a disfagia contribui para o aumento dos custos com o cuidado da saúde e prolonga o tempo de internação, resultando na sobrecarga do sistema de saúde. Sobre a fisiologia da deglutição e as disfagias, assinale a afirmativa INCORRETA.
- A)No ambiente hospitalar, uma das opções terapêuticas comumente adotadas no manejo da disfagia para favorecer a deglutição segura e eficiente, é a modificação das consistências dos alimentos e líquidos, para facilitar a deglutição e reduzir os riscos de broncoaspiração.
Correta, porque a modificação de consistências e espessuras é uma conduta comum para melhorar a segurança e reduzir risco de broncoaspiração.
- B)A prevalência da disfagia é maior em pacientes hospitalizados do sexo masculino, pacientes com cardiopatias e idosos, afetando cerca de cinquenta desse último grupo. As causas subjacentes são doenças neurológicas e o envelhecimento de estruturas relacionadas ao processo de deglutição, favorecendo desnutrição, desidratação, aumento do tempo de internação, complicações respiratórias com necessidade de intubação, tratamento medicamentoso para pneumonia aspirativa e, até mesmo, o óbito.
Em geral, está correta ao apontar maior prevalência em idosos e hospitalizados e as principais complicações da disfagia, embora a redação seja imprecisa em alguns trechos.
- C)A utilização de modificações das texturas alimentares, como forma de intervenção clínica, levou à necessidade de estabelecer uma padronização internacional para classificar todas as consistências alimentares. Em 2013, a Iniciativa Internacional de Padronização de Dietas para Disfagia (IDDSI) desenvolveu uma terminologia para classificação das texturas de alimentos e espessura das bebidas por meio de um diagrama – diagrama IDDSI, que proporciona aos profissionais a indicação adequada do alimento ou bebida para o indivíduo disfágico.
Correta, pois a padronização internacional IDDSI foi criada justamente para classificar texturas alimentares e espessuras de líquidos em disfagia.
- D)A fase faríngea da deglutição se inicia com a invasão pressórica da orofaringe – a ejeção oral. Durante essa fase, o escape nasal é impedido pelo ajuste do palato mole contra a parede posterior da faringe, evitando, assim, a dissipação da pressão. Simultaneamente, ocorre o início da propagação de sequência contrátil da musculatura constritora da faringe em sentido crânio-caudal. O bolo alimentar segue em direção à laringofaringe que, neste momento, encontra-se receptiva, pela ampliação promovida pelos músculos dilatadores e pela elevação e anteriorização do complexo hiolaríngeo.
Correta, porque descreve adequadamente mecanismos da fase faríngea, como o fechamento velofaríngeo, a contração faríngea e a elevação hiolaríngea.
- E)Na fase oral, no estágio de organização, o bolo alimentar é usualmente posicionado sobre o dorso da língua. As estruturas osteomusculoarticulares, responsáveis pela morfofuncionalidade da boca, se organizam para a ejeção que se cumpre pelo ajustamento das paredes bucais e projeção posterior da língua, gerando pressão positiva, conduzindo o bolo e transferindo pressão para a faringe. A força propulsiva, indispensável na condução do alimento, é gerada na transição faringoesofágica. O volume, a densidade e a viscosidade do material a ser deglutido não interferem na pressão a ser gerada nessa cavidade durante a ejeção, gerando pouca influência nas fases oral e faríngea.
Incorreta, porque atribui a força propulsiva à transição faringoesofágica e afirma que volume, densidade e viscosidade não interferem, o que contraria a fisiologia da deglutição.
Gabarito: E
A deglutição é um processo em etapas, com participação coordenada da boca, faringe, laringe e esôfago, tudo isso sob controle neurológico fino. Quando essa engrenagem falha, surge a disfagia, que pode causar tosse, engasgos, desnutrição, desidratação e até pneumonia aspirativa, especialmente em idosos e pacientes hospitalizados. No manejo clínico, uma medida muito usada é adaptar a consistência dos alimentos e a espessura dos líquidos. A ideia é simples: se o bolo fica mais fácil de controlar, o risco de penetração e aspiração diminui. Por isso, a classificação padronizada IDDSI ajuda a equipe a falar a mesma língua e a indicar a textura mais segura para cada paciente. A alternativa E está incorreta porque mistura conceitos da fase oral com a faríngea e ainda erra ao dizer que a força propulsiva é gerada na transição faringoesofágica e que o volume, a densidade e a viscosidade não influenciam a deglutição. Influenciam, e muito: essas variáveis alteram a pressão necessária, o tempo de trânsito e a segurança da deglutição. Na fase oral, o bolo é preparado e propulsionado pela língua, e não pela transição faringoesofágica. Em provas, a banca costuma cobrar a fisiologia de forma bem detalhista, trocando fases, estruturas e funções. Então, quando aparecer uma frase dizendo que um segmento anatômico faz o trabalho de outro, desconfie na hora: quase sempre é aí que mora a pegadinha.