A atuação fonoaudiológica considerando os pacientes idosos compreende vários aspectos: transtornos de fala; audição; voz; alterações da memória; e, do processo da alimentação. As alterações do processo da alimentação merecem atenção especial, uma vez que estão diretamente relacionadas com nutrição, hidratação e qualidade de vida de idosos. Sobre as alterações da deglutição na população idosa, assinale a afirmativa correta.
- A)A disfagia caracteriza-se por um distúrbio da deglutição ou qualquer dificuldade do trânsito do bolo alimentar da boca até o estômago, podendo estar associada a complicações, tais como: desnutrição, desidratação, pneumonia aspirativa, penetração de saliva, ou restos alimentares no vestíbulo laríngeo, exclusivamente, durante a deglutição.
Errada, porque a disfagia não se limita a complicações apenas durante a deglutição, e a descrição ainda restringe de forma inadequada os eventos como penetração de saliva ou resíduos.
- B)O controle do processo de deglutição no troncoencefálico é feito pelo chamado centro de deglutição, localizado na formação reticular bulbar. Os neurônios localizados no núcleo do trato solitário desempenham papel de direção da deglutição, atuando no disparo e geração da sequência motora. São, portanto, responsáveis pelo início e organização do padrão rítmico da deglutição e, dessa maneira, caso não haja lesão nessas áreas, não haverá alteração na deglutição do idoso.
Errada, porque apesar de existirem centros e núcleos envolvidos no controle da deglutição, a ausência de lesão nessas áreas não garante deglutição normal no idoso, já que fatores periféricos e sistêmicos também interferem.
- C)A população idosa apresenta alto risco para disfagia, em consequência dos efeitos do processo de envelhecimento no mecanismo da deglutição. Apesar de estes efeitos isoladamente não causarem a disfagia, tornam o mecanismo da deglutição mais vulnerável a distúrbios causados por alterações de saúde, como infecções de vias aéreas superiores. Estudos utilizando videofluoroscopia da deglutição demonstram que, com o avançar da idade, as alterações nas fases oral e faríngea da deglutição são mais frequentes, uma vez que as doenças que podem gerar um quadro disfágico são mais prevalentes no idoso.
Certa, pois o envelhecimento aumenta a vulnerabilidade da deglutição e favorece alterações nas fases oral e faríngea, principalmente quando coexistem doenças mais comuns na velhice.
- D)Com o avanço da idade, a capacidade funcional da musculatura e dos ligamentos é afetada por mudanças fisiológicas. A perda dos dentes causa problemas de mastigação; entretanto, não interfere na deglutição. A diminuição do tônus muscular ocasiona diminuição na efetividade do esvaziamento faríngeo; a dilatação faríngea predispõe ao desenvolvimento de divertículo; a flacidez dos ligamentos diminui a amplitude de elevação e abaixamento da laringe; e, a abertura do esfíncter esofágico superior. Apesar das mudanças anatomofisiológicas resultantes do envelheccimento, há evidências de que idosos saudáveis não apresentam disfagia, pois o comprometimento da deglutição, nessa faixa etária, ocorre devido à patologias neurológicas.
Errada, porque a perda dentária pode interferir na mastigação e impactar a preparação do bolo alimentar, além de a frase reduzir indevidamente a disfagia do idoso apenas a patologias neurológicas.
Gabarito: C
Na pessoa idosa, a deglutição merece atenção porque o envelhecimento pode deixar esse mecanismo mais lento e menos eficiente, mesmo sem representar, por si só, uma doença. Em outras palavras: envelhecer não é automaticamente ter disfagia, mas aumenta a vulnerabilidade para problemas quando aparecem doenças associadas, uso de medicamentos, fraqueza muscular ou alterações neurológicas. A disfagia é justamente a dificuldade no ato de engolir, podendo comprometer desde a fase oral até a passagem do alimento para o estômago. Ela pode trazer consequências importantes, como desnutrição, desidratação e pneumonia aspirativa, por isso a avaliação fonoaudiológica no idoso é tão relevante. A alternativa C está correta porque traduz bem a ideia central da literatura: o idoso tem maior risco de disfagia devido às mudanças fisiológicas do envelhecimento, mas essas mudanças, isoladamente, não costumam causar disfagia. Elas deixam a deglutição mais sensível a outras doenças, e estudos por videofluoroscopia mostram alterações mais frequentes nas fases oral e faríngea com o avanço da idade. Isso cai muito em prova: o examinador gosta de misturar envelhecimento normal com patologia. Então, quando aparecer a ideia de que todo idoso disfágico é doente, desconfie. O raciocínio correto é mais elegante: envelhecimento pode reduzir a reserva funcional, e a doença é que costuma revelar o problema.