Nos casos de câncer de cabeça e pescoço, o fonoaudiólogo é responsável por atuar no cuidado integral com a equipe multiprofissional, tanto na atenção básica quanto na atenção especializada; desde a fase do diagnóstico, antes, durante e após o tratamento clínico ou cirúrgico. O fonoaudiólogo deve intervir visando minimizar as sequelas relacionadas à deglutição e fonação, que podem comprometer a qualidade de vida do paciente. Sobre o tema em comento, assinale a afirmativa correta.
- A)A mucosite, inflamação da mucosa da cavidade oral, é o efeito tardio de menor frequência, com pouca repercussão na alimentação adequada do paciente, assim como na fonação. Como sintoma imediato da ação radioterápica, pode ocorrer sensação dolorosa durante apenas a mastigação, causada pela irritação dos tecidos e pelas dificuldades de movimentação mandibular; alteração na qualidade vocal não são comumente observadas nesses pacientes.
Errada, porque a mucosite é efeito agudo comum da radioterapia, não tardio, e costuma comprometer muito a alimentação e a fala, além de poder haver alteração vocal.
- B)O edema, a fibrose ou a irregularidade das bordas da mucosa da prega vocal podem resultar em disfonia, com queixas relacionadas à fadiga, redução da extensão do pitch e da loudness, falta de clareza vocal, rouquidão e alteração vocal nos aspectos social, funcional, emocional e físico. Indivíduos submetidos à radioterapia podem apresentar fibrose, alterações sensoriais, redução do movimento e da força muscular, justificando as anormalidades das fases faríngea e esofágica da deglutição, uma vez que não há evidências de comprometimentos nas outras fases.
Errada, porque a radioterapia pode comprometer também fases mais iniciais da deglutição e a descrição minimiza indevidamente o impacto funcional ao dizer que não há evidências em outras fases.
- C)Quanto à análise funcional, em geral, pacientes com câncer de orofaringe submetidos a tratamento curativo (radioterapia, quimioterapia e cirurgia, exclusivas ou associadas entre si, com ou sem reconstrução) apresentam sistema estomatognático com alterações de sensibilidade e mobilidade em língua, lábios, palato mole, regiões jugais e também da simetria de face, lábios e língua; discreta alteração da qualidade vocal, porém com presença de alteração de inteligibilidade da fala e de erros articulatórios, como de golpe de glote e fricativas faríngeas; e, deglutição com alteração da fase oral e faríngea, caracterizando uma disfagia.
Certa, porque descreve adequadamente as alterações sensitivas, motoras, articulatórias, vocais e de deglutição esperadas em pacientes com câncer de orofaringe tratados com cirurgia, rádio e quimioterapia.
- D)A radioterapia na região da cabeça e pescoço pode desencadear diferentes graus de severidade de sequelas crônicas, como mucosite, candidíase, xerostomia, ulcerações e sangramento da mucosa, que explicam as dificuldades na mastigação, no motor do alimento e na redução da amplitude do movimento e força da língua, faringe e laringe, embora não haja nenhuma repercussão em nível sensorial. Em relação às sequelas agudas, as mais referidas são o edema da laringe; fibrose; rigidez; radionecrose; trismo; cáries dentárias; xerostomia; redução do olfato e do paladar; paralisia de prega vocal; diminuição do reflexo de deglutição; e, do peristaltismo faríngeo; todas essas alterações podem promover modificação na eficiência da deglutição sem, necessariamente, comprometer sua segurança e ocasionar disfagias.
Errada, porque mistura sequelas agudas e crônicas de forma incorreta e afirma, sem base, que não há repercussão sensorial nem disfagia, embora essas alterações sejam frequentes.
Gabarito: C
Em câncer de cabeça e pescoço, o fonoaudiólogo atua desde a avaliação inicial até o acompanhamento após o tratamento, porque radioterapia, quimioterapia e cirurgia podem deixar marcas importantes na fala, na voz e na deglutição. Na prática, isso significa observar mastigação, mobilidade de língua e mandíbula, sensibilidade, coordenação da deglutição e qualidade vocal, sempre pensando em função e qualidade de vida. Um ponto clássico é que a radioterapia pode provocar alterações estruturais e funcionais: mucosite, xerostomia, fibrose, redução de mobilidade, dor, alteração de sensibilidade e, com isso, prejuízo na fase oral e na fase faríngea da deglutição. Também pode haver alteração da fala e da voz, com impacto direto na inteligibilidade e na comunicação social do paciente. A alternativa C está correta porque descreve exatamente esse quadro funcional esperado em pacientes com câncer de orofaringe tratados com intenção curativa. Ela reconhece alterações de sensibilidade e mobilidade em estruturas essenciais do sistema estomatognático, além de apontar prejuízo na fala e na deglutição, o que caracteriza disfagia. É a resposta mais alinhada com a atuação fonoaudiológica no câncer de cabeça e pescoço. Como base doutrinária, isso é coerente com a prática fonoaudiológica em oncologia e com as diretrizes de atenção integral ao paciente oncológico no SUS, que enfatizam reabilitação precoce e multiprofissional para minimizar sequelas funcionais.