A paralisia cerebral caracteriza-se como um grupo de desordens permanentes do desenvolvimento do movimento e da postura, ocasionando limitações de atividades atribuídas a distúrbios não progressivos que ocorrem no cérebro infantil em desenvolvimento. Crianças com tais alterações apresentam, frequentemente, modificações na função de deglutição, levando a comprometimentos clínicos, como a pneumonia de repetição e a desnutrição. Diante do exposto, analise as afirmativas a seguir. I. Crianças com paralisia cerebral frequentemente apresentam aumento do tempo de preparo e de trânsito oral, ocasionando maior gasto energético durante a ingestão oral, prejudicando a manutenção e o ganho de peso na criança. Diante da alta incidência em paciente com paralisia cerebral, o tempo de preparo e de trânsito oral não pode ser um indicador da gravidade da disfagia, apesar de estar mais aumentado naquelas com maior comprometimento motor. II. O maior conhecimento frente às correlações dos achados de deglutição com as demais alterações motoras em pacientes com paralisia cerebral pode facilitar as condutas da equipe. A incidência de disfagia em todos os níveis de comprometimento motor global demonstra a necessidade de rastrear a deglutição em todos os pacientes com paralisia cerebral, independentemente da presença de queixas alimentares e/ou de quadros motores mais graves. III. A distribuição da gravidade da deglutição em relação ao nível motor evidencia tendência de piora da disfagia de acordo com a piora nos níveis de comprometimento motor global. Espera-se maior incidência de disfagia grave para líquidos em crianças com maior comprometimento motor. Está correto o que se afirma apenas em
- A)I.
A alternativa sustenta que apenas a afirmativa I estaria correta. O problema é que a I mistura uma parte compatível com a literatura fonoaudiológica, como o aumento do tempo de preparo e de trânsito oral e o maior gasto energético para se alimentar, com uma conclusão equivocada: esse atraso pode, sim, ajudar a dimensionar a gravidade da disfagia e costuma se agravar nos quadros motores mais comprometidos. Como a I erra nesse ponto central, não é possível manter essa opção.
- B)III.
Aqui se afirma que somente a afirmativa III estaria correta. A III realmente expressa um achado clássico na paralisia cerebral: quanto maior o comprometimento motor global, maior tende a ser a gravidade da disfagia, inclusive com pior desempenho para líquidos, que exigem melhor coordenação oral e faríngea. O erro da alternativa é desconsiderar que a II também descreve corretamente a necessidade de rastreio da deglutição em todos os pacientes com paralisia cerebral.
- C)I e III.
Esta opção reúne as afirmativas I e III. A III está de acordo com a relação bem documentada entre maior comprometimento motor e pior deglutição, especialmente para líquidos, mas a I se compromete ao dizer que o tempo de preparo e de trânsito oral não pode indicar gravidade, embora esse dado seja justamente um marcador funcional importante e tenda a piorar nos casos mais graves. Por isso, a combinação proposta não se sustenta.
- D)II e III.
A alternativa traz as afirmativas II e III, que são as que se ajustam ao conteúdo técnico. A II está correta ao defender o rastreamento da deglutição em todos os pacientes com paralisia cerebral, porque a disfagia pode aparecer em diferentes níveis de comprometimento motor e nem sempre depende de queixa alimentar; a III também está correta ao relacionar piora da disfagia com maior limitação motora global. Essa relação é coerente com a fisiopatologia da paralisia cerebral e com a prática clínica em disfagia pediátrica.
Gabarito: D
Na paralisia cerebral, a deglutição costuma sofrer junto com o controle motor global. Isso acontece porque a criança pode ter alterações de tônus, coordenação e planejamento motor, o que atrapalha desde o preparo do alimento na boca até a passagem para a faringe. Resultado prático: comer fica mais demorado, mais cansativo e, em alguns casos, perigoso. Um ponto muito cobrado é que o tempo de preparo e de trânsito oral costuma aumentar, especialmente nas crianças com maior comprometimento motor. Então, quando esse tempo está bem alterado, ele ajuda sim a sugerir maior gravidade da disfagia, e não o contrário. Por isso, a afirmativa I erra ao dizer que esse dado não pode ser indicador de gravidade. A afirmativa II está correta porque a disfagia pode aparecer em diferentes níveis de comprometimento motor global, e isso reforça a necessidade de rastrear a deglutição em todos os pacientes com paralisia cerebral, mesmo quando a família não relata queixa alimentar importante. Em concurso, desconfie de frases que restringem rastreio só aos casos graves: nessa área, o olhar precisa ser amplo. A afirmativa III também está correta. Em geral, quanto pior o nível motor, maior a chance de disfagia grave, inclusive para líquidos, que são mais difíceis de controlar. Assim, o gabarito D faz sentido porque apenas II e III estão de acordo com a relação clássica entre gravidade motora e alteração de deglutição na paralisia cerebral.