A gagueira é um distúrbio da fala que resulta de uma influência complexa de múltiplos fatores que incluem predisposição genética, habilidades motoras da fala, fatores linguísticos, cognitivos, emocionais e ambientais. Sabe-se que seu espectro de fatores de risco é amplo e heterogêneo. Analisar as manifestações clínicas respeitando determinados parâmetros é fundamental, uma vez que as condutas a serem tomadas dependerão da tipologia e da frequência das disfluências, assim como do modo como a criança reage às dificuldades na fala. Sobre as disfluências, assinale a afirmativa INCORRETA.
- A)A integridade do sistema nervoso, bem como os aspectos orgânicos são pré-requisitos para uma fala fluente. De acordo com a literatura, o sintoma mais óbvio e primário da gagueira é a falha intermitente do sistema nervoso na geração de sinais que comandam apropriadamente os músculos daquelas atividades que devem ser controladas dinamicamente para a fala fluente ser produzida. Neste sentido, danos cerebrais precoces, traumas ou doenças no nascimento podem colaborar para a manifestação da gagueira. Mesmo com essa perspectiva predominantemente neurolinguística, a influência dos outros fatores continua sendo aceita; assim, a ideia da multicausalidade para a gagueira de desenvolvimento permanece válida.
Está correta, pois relaciona a fluência a fatores neurológicos e mantém a visão multicausal da gagueira do desenvolvimento.
- B)Há dificuldade, em alguns casos, para diferenciar crianças que irão se recuperar espontaneamente daquelas que irão desenvolver gagueira crônica; por isso são necessárias as informações sobre os fatores de risco para a cronicidade da gagueira. Dentre esses fatores, estão o gênero, a idade, o tipo de surgimento da gagueira, o tempo de duração e a tipologia das disfluências, os fatores estressantes físicos ou o histórico mórbido pré, peri e pós-natal, o histórico familial, os fatores estressantes emocionais que ocorreram próximo ao surgimento do distúrbio, bem como os fatores comunicativos e qualitativos associados. Considerando a idade, as disfluências frequentemente aparecem nos anos pré-escolares, com uma idade média do surgimento de trinta meses.
Está correta, porque lista fatores de risco para cronicidade e traz a faixa etária típica de início na idade pré-escolar.
- C)Sabe-se que frequentemente as disfluências que ocorrem dentro da palavra são consideradas disfluências gagas, como bloqueios, hesitações, interjeições e revisões. As disfluências mais comumente encontradas na gagueira são repetições de sons ou sílabas e posição articulatória fixa, resultando em bloqueios ou prolongamentos de sons. As disfluências comuns frequentemente são caracterizadas por prolongamentos, repetições de sons, ou de parte de palavras. As repetições podem ser tanto comuns ou gagas dependendo da unidade que foi repetida; quando a unidade for pequena, como uma palavra monossilábica, parte da palavra ou som, é considerada como disfluência comum. Repetições de unidades grandes como palavras inteiras não monossilábicas, parte do enunciado ou de frases são consideradas como disfluências gagas.
Está errada, porque classifica de forma invertida as disfluências comuns e gagas, especialmente quanto ao tipo de repetição e aos exemplos dados.
- D)Processos de maturação fisiológicos e neuroanatômicos provavelmente estão relacionados com o surgimento da gagueira desenvolvimental em crianças pré-escolares, a qual parece estar intimamente vinculada às habilidades metalinguísticas. Estudos de imagem cerebral indicam que a gagueira possivelmente tem sua origem nos múltiplos centros cerebrais de linguagem, ainda que se aceite que haja também dificuldades no controle motor da fala. O surgimento persistente da gagueira e um tempo maior que doze meses de duração das disfluências são indicativos de um distúrbio crônico. A recuperação espontânea da gagueira ocorre principalmente nos primeiros anos de vida, sendo que muitas crianças se recuperam durante os doze meses após o início das disfluências. Portanto, quanto mais nova a criança e quanto menor o tempo de duração das disfluências, maior a possibilidade de ocorrer a recuperação espontânea da gagueira.
Está correta, pois associa o surgimento da gagueira do desenvolvimento a processos maturacionais, fala em chance maior de recuperação precoce e reconhece a persistência como sinal de cronicidade.
Gabarito: C
A gagueira do desenvolvimento é um quadro multifatorial: envolve predisposição genética, maturação neurológica, linguagem, cognição, emoção e ambiente. Na prática, o que mais cai em prova é a ideia de que você não deve olhar só para a fala “travada”, mas para o tipo de disfluência, sua frequência, a reação da criança e os fatores de risco para cronicidade. Isso ajuda a diferenciar uma fase transitória de um quadro que pode persistir. Em geral, a gagueira costuma surgir na fase pré-escolar, muitas vezes por volta dos 2 a 4 anos, e muitos casos melhoram espontaneamente nos primeiros anos após o início. Quanto mais cedo a criança é avaliada e menor o tempo de evolução, maior a chance de remissão espontânea. Já sinais como história familiar, maior duração, maior frequência e maior gravidade das disfluências acendem o alerta. O ponto central da questão está na classificação das disfluências. Disfluências comuns não são aquelas “travadas” típicas da gagueira; elas incluem hesitações, interjeições, revisões, repetições de palavras inteiras e pausas. As disfluências gagas, por outro lado, são mais ligadas a repetições de sons ou sílabas, prolongamentos, bloqueios e pausas intrusivas, especialmente quando ocorrem dentro da palavra ou em posições articulatórias fixas. Por isso, a alternativa C está incorreta: ela embaralha os conceitos e troca exemplos de disfluências comuns e gagas. Em prova, a banca adora essa inversão sutil, porque parece plausível à primeira vista, mas derruba quem não distingue bem o padrão típico da gagueira.