Leia o fragmento abaixo: “Parece não haver dúvidas de que a ideologia de um Brasil-cadinho começa a se forjar no final do século XIX. Procuramos mostrar como a categoria de mestiço é, para autores como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues, uma linguagem que exprime a realidade social deste momento histórico, e que ela corresponde, no nível simbólico, a uma busca da identidade”. (ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2011 - p. 37.) A “ideologia de um Brasil-cadinho”, acrescida da abolição da escravidão no final do século XIX, teve como consequência para a cultura brasileira o/a
- A)surgimento da “fábula das três raças”, como seria definida posteriormente por Roberto DaMatta.
Certa, porque expressa a construção simbólica da identidade brasileira a partir da mestiçagem, depois associada à ideia das três raças.
- B)consolidação da democracia racial no Brasil, enquanto decorrência de políticas de ações afirmativas.
Errada, porque democracia racial não decorre de ações afirmativas nem foi consolidada nesse período; trata-se de uma ideologia muito posterior e criticada pela sociologia.
- C)oficialização de um Estado plurinacional, desde a abolição da escravidão e os primeiros anos de regime republicano.
Errada, porque o Brasil não se tornou um Estado plurinacional, e essa noção não corresponde à formação do Estado republicano brasileiro.
- D)integração voluntária das populações negra e indígena à identidade nacional, pela via da assimilação.
Errada, porque a integração não foi simplesmente voluntária nem harmoniosa; houve hierarquias, exclusão e forte assimilação forçada.
Gabarito: A
No fim do século XIX, o Brasil entrou numa fase de busca por identidade nacional. Depois da abolição da escravidão, muita gente da elite intelectual tentou explicar quem era o “povo brasileiro” e, nesse processo, a mestiçagem virou peça central do discurso. Em vez de enxergar a mistura racial como um problema a ser eliminado, passou-se a tratá-la como marca distintiva da nação. Aí nasce a ideia do Brasil como um grande cadinho, isto é, um lugar em que diferentes matrizes raciais e culturais se misturam e formam algo novo. Essa leitura aparece em autores como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues, que observam a realidade social do período e tentam dar sentido simbólico à formação do país. Renato Ortiz mostra justamente isso: a categoria de “mestiço” funciona como linguagem para pensar a identidade nacional. Mais tarde, essa visão seria simplificada e popularizada como a chamada “fábula das três raças”, isto é, a narrativa de que o Brasil seria formado pela contribuição harmoniosa de indígenas, negros e brancos. Por isso, o gabarito é a letra A. A questão junta dois elementos históricos importantes: a abolição e o esforço de redefinir a nação. O resultado foi a consolidação de um imaginário sobre a mestiçagem como fundamento da brasilidade, algo que depois aparece na interpretação clássica das três matrizes étnico-culturais. Não é um consenso científico neutro, mas uma construção ideológica muito influente na cultura brasileira. Em resumo: o período pós-abolição não resolveu magicamente as desigualdades raciais, mas produziu um discurso nacional que transformou a mistura em símbolo de identidade. É o Brasil tentando se explicar no espelho e, claro, dando um jeito de chamar isso de “alma nacional”.