Em “O efeito etnográfico”, Marilyn Strathern (2014) nos provoca a pensar modos de construir uma escrita que não encerre as potencialidades simbólicas e criativas dos interlocutores na pesquisa etnográfica. De tal modo, para que a construção dessa escrita-tradução faça jus às outras formas de conhecimento, o(a) antropólogo(a) deveria realizar o movimento de olhar, simultaneamente, suas próprias categorias analíticas, pois é por meio delas que se orienta tanto o trabalho de campo quanto a análise final do seu trabalho. Nesse sentido, a autora propõe uma expansão das metáforas analíticas do(a) etnógrafo(a) e, após adquirida essa extensão de categorias, que se faça o movimento de alternância entre suas perspectivas e as de seus interlocutores, naquilo que a autora denomina “momento etnográfico”. De acordo com a perspectiva da autora, esse movimento de alternância, durante o trabalho de campo e na escrita etnográfica, denomina-se como:
- A)Cooperação.
Errada: cooperacao pode existir na pesquisa, mas nao nomeia o movimento de alternar e revisar as proprias categorias analiticas.
- B)Dinamismo.
Errada: dinamismo sugere movimento, mas e generico demais e nao corresponde ao conceito teorico proposto por Strathern.
- C)Holismo.
Errada: holismo e a ideia de analisar o todo e as partes em relacao, o que nao e o foco da alternancia reflexiva descrita no enunciado.
- D)Ilusionismo.
Errada: ilusionismo nao tem relacao com a pratica etnografica indicada, sendo um termo fora do debate teorico da questao.
- E)Reflexividade.
Certa: reflexividade e o retorno critico sobre as proprias categorias e posicao do pesquisador, exatamente o vaivem entre perspectivas descrito por Strathern.
Gabarito: E
Marilyn Strathern chama atenção para um ponto central da etnografia: voce nao observa um povo “de fora”, como se houvesse neutralidade pura. Ao escrever, o antropologo precisa perceber que suas proprias categorias analiticas tambem moldam o que ele enxerga, classifica e interpreta. Por isso, a pesquisa etnografica nao e so coleta de dados, mas um exercicio continuo de vaivem entre o olhar do pesquisador e o universo simbolico dos interlocutores. Esse vaivem e exatamente o que a questao descreve quando fala em alternancia de perspectivas no campo e na escrita. A ideia e nao congelar o outro dentro de um esquema pronto, mas revisar as proprias lentes enquanto se dialoga com as categorias nativas. Em termos simples: voce olha para o outro e, ao mesmo tempo, olha para o proprio jeito de olhar. Isso e reflexividade. Na antropologia, essa postura e bem conhecida: o pesquisador nao e uma camera automatica, ele faz escolhas, interpreta e traduz. Strathern critica justamente a escrita que fecha demais as possibilidades de sentido dos interlocutores. O momento etnografico, portanto, exige que o antropologo teste e desloque suas categorias, em vez de trata-las como verdades absolutas. Por isso, o gabarito e a letra E. Reflexividade e a capacidade de voltar o olhar para os proprios pressupostos, reconhecendo que a analise tambem e produzida a partir deles. Em suma: nao basta descrever a cultura alheia, voce precisa tambem examinar a sua propria maneira de descrever.