Leia o depoimento de uma socióloga indígena a respeito dos desafios enfrentados pelos povos tradicionais em ambiente urbano: Sou Avelin Buniacá Kambiwá, mulher indígena do povo Kambiwá, moradora de Belo Horizonte de família migrante. A migração da minha família do sertão pernambucano para a capital mineira, se deu pela busca de melhores perspectivas de emprego e de renda. Com as condições desfavoráveis encontradas na cidade, foi muito difícil preservar as práticas sagradas originais, sendo que restou, a nós migrantes indígenas, ocupar as áreas pobres e de periferia dos centros urbanos, onde prevalecem, majoritariamente, as igrejas evangélicas pentecostais. Foi onde nos tornamos “Índio favela”. No que tange às nossas práticas do sagrado, esse desaparecimento é ainda mais evidente e violento. Não apenas pelo óbvio aspecto urbano da vida sem contato com a natureza, as roças, as ervas para o feitio dos chás, pomadas e remédios, mas também por uma pressão social para que isso aconteça. Participar dos ritos do colonizador camufla o racismo e nos dá uma falsa sensação de pertencimento. Adaptado de Avelin Buniacá Kambiwá, “Do índio favela ao toré no asfalto: as cidades, as práticas do sagrado e suas relações” in As Cidades e o Sagrado dos Povos Tradicionais. Belo Horizonte: Fund. Municipal de Cultura de Belo Horizonte, 2019, p. 38-39. Com base no depoimento, assinale a afirmativa que interpreta corretamente os problemas e as possibilidades das práticas ancestrais do sagrado nas cidades brasileiras para os povos tradicionais.
- A)As religiões de matriz indígena vinculam o sagrado aos elementos da natureza, motivo pelo qual os indígenas que migram para as cidades preferem se converter ao pentecostalismo.
Errada: o texto não diz que os indígenas "preferem" se converter, mas que sofrem pressões e dificuldades para manter suas práticas.
- B)A cosmovisão indígena opõe cultura a natureza e tecnologia, assim a espiritualidade indígena em meio urbano é fragilizada e sucumbe ao fundamentalismo religioso das periferias pobres.
Errada: a cosmovisão indígena não opõe cultura a natureza; ao contrário, costuma integrar ambas, e o problema apontado é a perda dessas referências no meio urbano.
- C)Os povos tradicionais em ambiente urbano experimentam o empobrecimento, a falta de referências e o isolamento, paralelamente a processos de assimilacionismo violentos.
Certa: a alternativa resume o empobrecimento, a ruptura de referências e a pressão assimilacionista sofridos por povos tradicionais nas cidades.
- D)Os espaços urbanos brasileiros, por sua diversidade social, cultural e étnica, são lugar de equidade na manifestação e compartilhamento de saberes indígenas em relação às outras tradições.
Errada: o enunciado mostra justamente desigualdade, pressão religiosa e apagamento cultural, não equidade no compartilhamento dos saberes indígenas.
Gabarito: C
O depoimento mostra um problema bem conhecido na sociologia da cultura: quando grupos tradicionais migram para a cidade, eles não levam só pessoas e malas, levam também modos de vida, memórias, ritos e formas de entender o mundo. Só que o ambiente urbano nem sempre acolhe isso. Muitas vezes ele empurra esses grupos para a periferia, para a pobreza e para a pressão de se adaptar a uma cultura dominante, como se a cidade dissesse: "entre, mas deixe sua identidade do lado de fora". No caso dos povos indígenas, o sagrado costuma estar ligado à terra, às plantas, aos ciclos da natureza, aos territórios e às práticas comunitárias. Na cidade, tudo isso fica mais difícil de manter: faltam espaço, continuidade territorial e liberdade real para praticar os rituais. Além disso, a fala destaca um ponto forte: existe pressão social e religiosa para assimilação, e isso pode apagar identidades e criar uma falsa sensação de pertencimento. É o velho roteiro do "se misture para ser aceito". Por isso, o gabarito é a letra C. Ela capta dois elementos centrais do depoimento: o empobrecimento material e simbólico dos povos tradicionais no espaço urbano e o processo de assimilacionismo violento, isto é, a tentativa de fazer com que abandonem seus traços culturais para caberem no modelo dominante. A cidade não aparece ali como lugar neutro, mas como um espaço de desigualdade e pressão cultural. Como leitura de fundo, vale lembrar que a Constituição Federal de 1988 protege as manifestações culturais dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, inclusive indígenas e demais povos tradicionais. Na prática, porém, a garantia legal não impede, sozinha, a exclusão social e a imposição de padrões culturais hegemônicos. A sociologia entra justamente para mostrar essa diferença entre o direito no papel e a vida real.