Em 2024, foi publicado o livro Eu devia estar na escola, que reúne cartas de crianças e adolescentes do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, nas quais relatam vivências de violência e conflitos armados entre traficantes e policiais na região. A iniciativa teve como objetivo chamar a atenção para a violência urbana nas grandes cidades brasileiras e seu impacto no desenvolvimento das crianças e adolescentes. Um dos exemplos dessas expressões é o desenho apresentado a seguir, que retrata um helicóptero com a inscrição “Polícia”, disparando projéteis de armas. Na esquina inferior, lê-se: “Desde que eu nasci, é assim. Só se repete. Mas agora tem helicóptero que atira também”. Fonte: LUZ, Ananda; Isabel Malzoni. Eu devia estar na escola. São Paulo: Editora Caixote, 2024, p. 21, citado por Tokarnia, Mariana. Crianças do Complexo da Maré relatam violência policial. Agência Brasil em 14/04/2024. É correto afirmar que a publicação desse livro é uma iniciativa que expressa
- A)A curiosidade pelo processo psicológico natural na infância, no qual, durante essa fase de desenvolvimento, surgem medos relacionados a figuras específicas, como monstros e ambientes noturnos.
Errada, porque não se trata de medos naturais da infância, mas de vivências reais de violência urbana e armada.
- B)O interesse por incentivar as crianças a escreverem literatura infantil, permitindo que seus aspectos lúdicos se manifestem por meio da criação de histórias, estimulando assim a imaginação.
Errada, porque o objetivo não é estimular literatura infantil lúdica, e sim dar voz a experiências de sofrimento e insegurança.
- C)A curiosidade pela interpretação das crianças que entendem que o Estado democrático garante e executa plenamente seus direitos fundamentais, como educação e desenvolvimento.
Errada, porque o livro mostra justamente a violação de direitos e a vulnerabilidade, não uma garantia plena de proteção pelo Estado.
- D)O interesse pela percepção das crianças acerca de seus próprios estados de vulnerabilidade e das experiências resultantes do convívio com a violência urbana, fenômeno que impacta de forma direta e significativa suas vidas.
Certa, pois evidencia como crianças percebem e relatam sua própria vulnerabilidade diante da violência urbana que interfere diretamente em suas vidas.
- E)A curiosidade pela inocência e da falta de compreensão das crianças em relação aos eventos que ainda não conseguem interpretar em suas vidas, decorrente do processo incompleto de desenvolvimento psicossocial.
Errada, porque as crianças não aparecem como incapazes de compreender o que vivem, mas como testemunhas diretas de uma violência recorrente.
Gabarito: D
A questão trata da relação entre cidade, violência urbana e experiência social das crianças e adolescentes que vivem em áreas marcadas por conflitos armados. Em Sociologia, o espaço urbano não é só cenário: ele organiza oportunidades, medos, circulação, acesso a direitos e até a forma como a infância é vivida. Quando a violência se torna rotina, a cidade passa a ser percebida pelas crianças como um território de ameaça, e isso afeta educação, saúde, brincar e desenvolvimento. A publicação do livro, portanto, não é um exercício de literatura infantil inocente nem uma curiosidade psicológica abstrata. Ela dá visibilidade a relatos concretos de vulnerabilidade e à forma como a violência urbana atravessa a vida cotidiana dessas crianças, o que é exatamente o núcleo da alternativa D. Em termos mais sociológicos, a iniciativa denuncia a desigualdade urbana e a negação prática de direitos fundamentais previstos na Constituição de 1988, como educação, dignidade e proteção integral da criança e do adolescente.