No trecho a seguir, a autora levanta a questão da unidade e da diversidade na atividade da militância negra. Só que nesse movimento, cuja especificidade é o significante negro, existem divergências, mais ou menos fundas, quanto ao modo de articulação dessa especificidade. Deve o negro assimilar tudo que é eurobranco? Ou só transar o que é afronegro? Ou somas os dois? (...) Os diferentes tipos de resposta a essas questões, e a muitas outras, acabam por remeter a gente a falar de movimentos negros... no Movimento Negro. GONZÁLEZ, Lélia. Movimento ou movimentos negros? In: Lugar de negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982. Assinale a opção que descreve corretamente a posição exposta no trecho acima.
- A)A autêntica militância recusa as perspectivas exclusivistas, favorecendo uma articulação culturalmente aberta.
Errada, porque o texto não fala em simples abertura cultural, mas em conflitos reais sobre como articular identidade, estratégia e pertencimento no movimento negro.
- B)A diversidade interna do movimento negro é reflexo direto dos processos históricos de mestiçagem no Brasil.
Errada, porque a autora não reduz a diversidade interna do movimento a um efeito direto da mestiçagem, e sim a disputas políticas e culturais dentro da militância.
- C)Os impasses conceituais dentro do movimento negro configuram obstáculos estruturais à sua atuação.
Errada, porque o texto não trata as divergências como impedimento estrutural da atuação, mas como expressão normal da pluralidade do movimento.
- D)A noção de um movimento negro singular é uma construção retórica, sem esteio na sua pluralidade real.
Errada, porque a autora não nega a unidade do movimento negro; ela afirma justamente que essa unidade existe, mas atravessada por diversidade e tensão.
- E)A unidade do movimento negro se configura na própria tensão da pluralidade, e não na uniformidade ideológica.
Certa, porque expressa que a unidade do movimento negro nasce da convivência entre diferenças, e não da imposição de uma linha única de pensamento.
Gabarito: E
Lélia Gonzalez está chamando atenção para uma ideia central dos movimentos sociais: nem toda unidade precisa vir de uniformidade. No caso do movimento negro, existe um eixo comum de luta contra o racismo, mas isso não apaga as diferenças internas de visão, estratégia, identidade cultural e projetos políticos. Em outras palavras, o movimento não vira “bagunça” porque há divergências; ele mostra vitalidade justamente porque comporta pluralidade. O trecho contrapõe soluções simplistas, como aceitar tudo sem critério ou fechar-se num purismo cultural. A autora sugere que a militância negra se organiza por tensões, negociações e múltiplas vozes. Isso é bem importante na Sociologia dos movimentos sociais: grupos coletivos podem ter diversidade interna e, ainda assim, compartilhar uma causa comum. Por isso, o gabarito é a letra E. Ela traduz a ideia de que a unidade do movimento negro nasce da própria tensão da pluralidade, e não de uma homogeneidade forçada. É uma leitura muito compatível com a tradição do pensamento de Lélia Gonzalez, que valoriza a complexidade da experiência negra no Brasil e rejeita visões estreitas ou excludentes. Se voce pensar em cidadania, a lógica é parecida: participar da vida pública não significa pensar igual a todo mundo, mas reconhecer direitos, diferenças e disputas dentro de uma mesma luta coletiva.