Leia o trecho a seguir. A ideia de uma “Sociedade de Consumo” vai além da ideia trivial de que todos os membros dessa sociedade consomem, uma vez que todos os seres humanos e todas as criaturas vivas consomem e sempre consumiram. Acreditamos que a análise do consumo como uma atividade social e cultural possibilitará uma melhor compreensão dos novos discursos e propostas advindas do pensamento ambientalista internacional, a partir da percepção da questão ambiental como um problema relativo aos estilos de vida e consumo. Deve-se destacar que a Sociedade de Consumo, como uma ideologia e utopia pautada na abundância, adquiriu um status de natural, universal e eterna, mas foi na verdade construída e instituída em oposição a outras ideologias, utopias pautadas na suficiência, que precisaram ser neutralizadas para permitir sua emergência. O consumo se converteu na arena onde a cultura é motivo de disputas e remodelações. Assim, decisões como o que comprar, quanto gastar, quanto economizar etc. são decisões baseadas em juízos morais e tanto geram quanto expressam aquilo que conhecemos como cultura, no seu sentido mais geral. Adaptado de: PORTILHO, Fátima. Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania. São Paulo: Cortez, 2005, p. 68-74. Com base na leitura do trecho, assinale a afirmativa que descreve corretamente a interpretação da autora sobre a sociedade do consumo.
- A)Considera a organização da sociedade através do consumo como um processo natural, representando a fase final do desenvolvimento humano.
Errada, porque o texto não trata o consumo como algo natural nem como etapa final do desenvolvimento humano, mas como construção social e cultural.
- B)Interpreta a sociedade do consumo como um sistema social que transforma o consumidor em uma vítima passiva, incapaz de tomar decisões.
Errada, porque a autora não reduz o consumidor a uma vítima passiva; ela mostra que há escolhas, disputas simbólicas e produção de sentido.
- C)Compreende a sociedade do consumo através da perspectiva material e simbólica, considerando as relações entre consumo, poder e identidade.
Certa, porque a interpretação articula a dimensão material e simbólica do consumo, relacionando-o com identidade, poder e cultura.
- D)Percebe a sociedade de consumo como um reflexo da dicotomia entre natureza e cultura, onde os processos culturais são completamente independentes dos processos naturais.
Errada, porque o texto justamente mostra a ligação entre processos culturais e escolhas de consumo, sem separar cultura e natureza de forma absoluta.
- E)Entende a sociedade de consumo como uma expressão de um fenômeno relacionado ao consumo em todas as suas formas.
Errada, porque é genérica demais e não capta o ponto central do trecho, que é o consumo como fenômeno social, cultural e simbólico.
Gabarito: C
A ideia central do trecho é que a sociedade de consumo não é só um lugar onde as pessoas compram coisas. Ela funciona como um jeito de organizar a vida social, a cultura, os valores e até a identidade das pessoas. Ou seja, consumir não é apenas satisfazer uma necessidade material, mas também sinalizar pertencimento, status, escolhas morais e estilo de vida. A autora destaca que o consumo virou uma arena de disputa cultural. Quando você escolhe o que comprar, quanto gastar ou poupar, você não está apenas fazendo uma conta no mercado: você está expressando valores, símbolos e modos de vida. Por isso, o consumo tem uma dimensão material e também simbólica. É exatamente aí que o gabarito C acerta. Ele capta essa leitura mais sociológica, mostrando a relação entre consumo, poder e identidade. Essa visão conversa com autores clássicos e contemporâneos da Sociologia da cultura, como Bourdieu, quando analisam como gostos e práticas de consumo distinguem grupos sociais, e com leituras críticas da modernidade de consumo. As outras alternativas escorregam porque tratam o consumo como algo natural e finalizado, como se as pessoas fossem apenas vítimas passivas, ou como se cultura e natureza fossem mundos separados sem conexão. O texto vai no caminho oposto: ele mostra que consumo é prática social, carregada de sentidos e disputas.