Leia o trecho a seguir sobre a declaração de Daniel Munduruku, filósofo indígena. Acho que posso generalizar sem medo de ser injusto. Em geral, os povos indígenas têm uma concepção de que o tempo é circular, como os ciclos da natureza. Eles não veem o tempo como algo linear, mas sim como algo que alimenta a si mesmo, desdobrandose e se projetando adiante. O passado diz respeito a quem somos, de onde viemos, e o presente é onde vivenciamos o resultado disso tudo. Com isto, esses povos construíram uma visão de mundo que, originalmente, não é baseada no tempo do relógio, da produção, do acúmulo de riquezas materiais. Essa é a visão resultante da concepção linear de tempo, que tem a ver com a certeza de que existe algo além do presente, ou seja, o futuro. Por essa ótica linear, no futuro, as pessoas serão mais felizes. Assim nascem as grandes histórias ocidentais sobre uma busca por algo muito importante: do santo graal a uma vida após esta vida. Esse olhar para o futuro aliena as pessoas para a necessidade mais imediata de construirmos nossa própria existência no presente. Fonte:https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024- 04/modo-nao-indigena-de-pensar-futuro-e-alienante-diz-danielmunduruku As afirmativas a seguir apresentam possíveis objetivos para a utilização deste trecho em sala de aula, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço.
Certa, porque o trecho permite analisar cultura, identidade e diversidade a partir de uma visão de mundo indígena.
- B)Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da pluralidade de procedimentos epistemológicos, científicos e tecnológicos.
Certa, porque o texto ajuda a discutir processos sociais, ambientais e culturais em diferentes tempos e contextos.
- C)Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza e seus impactos econômicos e socioambientais.
Certa, porque o trecho é diretamente útil para pensar relações entre povos, natureza e impactos socioambientais.
- D)Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades.
Certa, porque a fala também pode ser usada para refletir sobre trabalho, produção e a lógica do progresso nas sociedades.
- E)Analisar e identificar conhecimentos ultrapassados que precisam ser superados pelo avanço socioeconômico, com o objetivo de promover o desenvolvimento das potencialidades da população brasileira.
Errada, porque pressupõe que saberes indígenas sejam ultrapassados e devam ser superados, o que contradiz a proposta de valorização da diversidade cultural do trecho.
Gabarito: E
O trecho traz uma visão indígena de tempo e natureza que ajuda a discutir como diferentes povos organizam a vida social, os valores e a relação com o ambiente. Em sala, esse tipo de texto serve para comparar visões de mundo e mostrar que a sociedade não pensa o futuro, o trabalho e o progresso da mesma forma em todas as culturas. Isso é muito útil em Sociologia quando se quer ligar cultura, ambiente e diversidade de formas de viver. As alternativas A, B, C e D combinam com esse uso pedagógico, porque permitem analisar cultura, processos sociais e ambientais, relações com a natureza e até relações de produção e trabalho. Já a alternativa E destoa, porque fala em identificar conhecimentos ultrapassados a serem superados pelo avanço socioeconômico. O problema é que o trecho não pede para tratar a visão indígena como algo atrasado ou a ser descartado, mas como uma outra forma legítima de compreender o tempo e a existência. Em chave mais atual, isso conversa com a ideia de pluralismo cultural e com a valorização dos saberes dos povos indígenas, que aparece na Constituição Federal de 1988, nos direitos culturais e na proteção das manifestações das culturas indígenas. Também dialoga com a LDB, que estimula o respeito à diversidade cultural no processo educativo. Por isso, o gabarito é E: ela contraria o espírito do texto, porque transforma uma visão de mundo em algo a ser corrigido pelo “progresso”, em vez de reconhecê-la como conhecimento válido para reflexão crítica sobre sociedade e meio ambiente.