Leia os dois trechos das músicas a seguir. O primeiro é a versão original da música “Mulheres”, de Toninho Geraes, e o segundo é uma adaptação da música, realizada por Doralyce Ferreira e Silvia Duffrayer. I. Nós somos mulheres de todas as cores De várias idades, de muitos amores Lembro de Elza Soares, mulher fora da lei Lembro Marielle, valente e guerreira De Chica Da Silva, Toda Mulher Brasileira Crescendo oprimida pelo patriarcado Meu corpo, minhas regras, agora mudou o quadro Mulheres cabeça e muito equilibradas Ninguém está confusa, não te perguntei nada São elas por elas Escute este samba que eu vou te cantar Eu não sei por que eu tenho que ser a sua felicidade Não sou a sua projeção, você é que se baste Meu bem, amor assim eu quero longe de mim Sou Mulher, sou dona do meu corpo e da minha vontade Fui eu que descobri poder e liberdade Adaptado de: Música “Nós somos mulheres. Samba que elas querem” de Doralyce Ferreira e Silvia Duffrayer. II. Já tive mulheres de todas as cores De várias idades, de muitos amores Com umas até certo tempo fiquei Pra outras apenas um pouco me dei Já tive mulheres do tipo atrevida Do tipo acanhada, do tipo vivida Casada carente, solteira feliz Já tive donzela e até meretriz Mulheres cabeça e desequilibradas Mulheres confusas, de guerra e de paz Mas nenhuma delas me fez tão feliz Como você me faz Procurei em todas as mulheres a felicidade Mas eu não encontrei e fiquei na saudade Adaptado de: Música “Mulheres” de Toninho Geraes Analise as afirmativas a seguir relacionadas ao procedimento de adaptação da versão original do samba. I. Apropria-se de um elemento cultural que reforça papéis de gênero com o objetivo de questioná-lo e reformulá-lo de acordo com os interesses e os desejos de um grupo social. II. Plagia uma expressão cultural ao reproduzir fielmente seu conteúdo sem fazer a devida atribuição de autoria. III. Rejeita o estilo musical do samba que frequentemente perpetua a sexualização da mulher, representando-a como objeto de desejo masculino. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
Certa: a adaptação ressignifica um elemento cultural para questionar papéis de gênero e afirmar a autonomia feminina.
- B)I e II, apenas.
Errada: há atribuição de autoria e a obra não é reproduzida fielmente, mas transformada com novo sentido.
- C)I e III, apenas.
Errada: a versão não rejeita o samba, e sim o utiliza como suporte para crítica social e afirmação política.
- D)II e III, apenas.
Errada: não há plágio, e a tese sobre o samba perpetuar a sexualização feminina não é sustentada pelo enunciado.
- E)I, II e III.
Errada: as afirmativas II e III não se confirmam, então não há como marcar todas.
Gabarito: A
A questão trabalha um ponto bem conhecido em Sociologia da cultura: um produto cultural pode ser reutilizado, ressignificado e colocado a serviço de novos sentidos sociais. Aqui, a adaptação da música pega uma obra já existente e a transforma em uma fala de afirmação feminina, questionando a imagem tradicional da mulher como objeto do desejo masculino e afirmando autonomia, corpo e vontade próprias. Isso é muito típico de processos de ressignificação cultural, em que um elemento simbólico é deslocado de seu sentido original para servir a novas pautas e interesses de um grupo social. Por isso, a afirmativa I está correta: a versão adaptada se apropria de um repertório cultural conhecido para contestar papéis de gênero e reformular a mensagem. Em linguagem de prova, isso é mais ressignificação do que simples repetição. A adaptação não copia para manter tudo igual; ela reaproveita para provocar mudança de sentido. A afirmativa II está errada porque não há, no enunciado, reprodução fiel sem atribuição de autoria. Pelo contrário, a questão informa explicitamente que se trata de uma adaptação da música original, com indicação das autorias citadas no próprio texto. Isso afasta a ideia de plágio, que exige a apropriação indevida de obra alheia sem crédito. A afirmativa III também está errada porque a versão adaptada não rejeita o samba nem o seu estilo musical. Ela usa o samba justamente como veículo de crítica e afirmação política. Além disso, o enunciado não permite concluir que o samba, por si, perpetue sexualização da mulher como objeto de desejo masculino; essa leitura é uma generalização que não se sustenta aqui. Portanto, o gabarito é a alternativa A, apenas a afirmativa I.