Embora manifestações culturais de periferia, como o funk, contem hoje com reconhecimento pelo Estado, uma parte considerável da opinião pública tende a afirmar, por exemplo, que “funk não é cultura”. A concepção de cultura implícita nessa afirmação é a de cultura
- A)entendida como um conceito inclusivo que abrange todas as formas de expressão e prática social.
Errada, porque não é uma visão inclusiva de cultura, mas sim uma que exclui e deslegitima certas expressões sociais.
- B)interpretada sob a lente modernista, valorizando a inovação e as expressões artísticas contemporâneas.
Errada, pois o problema não é valorizar inovação artística, e sim hierarquizar o que conta como cultura.
- C)vista por meio de uma perspectiva hierárquica, na qual algumas formas são mais legítimas do que outras.
Certa, porque a afirmação pressupõe uma escala de legitimidade cultural, tratando algumas manifestações como inferiores ou indignas do nome cultura.
- D)percebida como algo sem valor ou irrelevante, questionando a sua importância utilitária.
Errada, porque a frase não diz que o funk é inútil ou irrelevante, mas que ele não seria cultura.
- E)tomada como aquilo que diz respeito unicamente às manifestações de origens populares.
Errada, pois cultura não se limita ao popular; ela inclui tanto manifestações populares quanto eruditas, tradicionais e contemporâneas.
Gabarito: C
A frase “funk não é cultura” revela uma ideia bem específica de cultura: a ideia de que existem manifestações culturais mais legítimas do que outras. Em vez de tratar a cultura como tudo aquilo que os grupos humanos produzem, vivem e significam no cotidiano, essa visão separa o que seria “cultura de verdade” do que seria apenas gosto popular, lazer ou barulho. É a velha mania de colocar uns no palco e outros na plateia, como se só alguns pudessem entrar no clube da cultura. Na Sociologia, especialmente após os estudos culturais e a antropologia contemporânea, cultura é entendida de forma ampla e plural, incluindo práticas, valores, símbolos e expressões de diferentes grupos sociais. O funk, nesse sentido, é uma manifestação cultural de periferia, com linguagem, estética, comportamento e identidade próprios. O fato de sofrer preconceito não o tira do campo da cultura; ao contrário, mostra como certos grupos tentam impor uma hierarquia cultural. Por isso, o gabarito é a letra C. A afirmação do enunciado pressupõe uma cultura vista de modo hierárquico, em que algumas formas são reconhecidas como superiores, refinadas ou legítimas, enquanto outras são desvalorizadas. Essa é uma leitura típica do senso comum elitista e também conversa com a crítica sociológica ao etnocentrismo, isto é, a tendência de julgar a produção cultural alheia a partir dos próprios padrões. Em termos doutrinários, a Sociologia e a Antropologia cultural trabalham com a noção de relativismo cultural, que convida a compreender as práticas sociais no contexto em que surgem, sem sair carimbando tudo como “certo” ou “errado”, “cultura” ou “não cultura”. No caso da questão, a frase citada não é neutra: ela carrega exatamente esse filtro hierarquizante.