Se Machado de Assis tornou-se quase inseparável do equacionamento das ‘ideias fora de lugar’, isto é, dos desnivelamentos e disparates entre a escravidão cotidiana e a pretensão universalizante do liberalismo burguês que pautou as nações modernas, o futebol brasileiro e Pelé são inseparáveis do ‘lugar fora das ideias’, o vetor inconsciente por meio do qual o substrato histórico e atávico da escravidão se reinventou de forma elíptica, artística e lúdica. WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. O autor traça uma comparação entre duas personagens importantes da cultura brasileira. O trecho destacado expressa
- A)a relegação dos afrodescendentes a uma posição marginal na cultura brasileira, reflexo direto do legado da escravidão.
Errada: o texto não afirma marginalização dos afrodescendentes como foco, mas sim a transformação simbólica de uma herança histórica no futebol.
- B)a celebração do esporte como o caminho apropriado para a ascensão social dos afrodescendentes brasileiros.
Errada: a questão não trata do esporte como via de ascensão social, e sim como expressão cultural que reelabora o passado.
- C)o contraste entre a elevação alcançada através da literatura e a conformidade cultural promovida pelo esporte.
Errada: o contraste apresentado não é entre literatura elevada e esporte conformista, mas entre duas formas de revelar tensões históricas do Brasil.
- D)a capacidade do esporte de reconfigurar as sequelas históricas em expressões de valor artístico.
Certa: o trecho aponta que o futebol e Pelé reinventam, de modo artístico e lúdico, marcas históricas ligadas à escravidão.
- E)a denúncia das ideologias que impedem o acesso dos mais desfavorecidos ao esporte e às manifestações culturais.
Errada: não há denúncia de bloqueio de acesso ao esporte e à cultura; o foco está na interpretação simbólica do futebol na sociedade brasileira.
Gabarito: D
O trecho de José Miguel Wisnik faz uma leitura cultural do Brasil por meio de duas figuras simbólicas: Machado de Assis, na literatura, e Pelé, no futebol. A ideia central é mostrar como cada um, em seu campo, revela tensões históricas do país, especialmente a herança da escravidão e suas formas de reorganização na vida social e cultural. Não é só sobre talento individual; é sobre como a história do Brasil aparece em formas diferentes de expressão. Quando o autor fala em "lugar fora das ideias", ele está sugerindo que o futebol e Pelé não cabem bem nas explicações tradicionais e racionais sobre modernidade e progresso. O esporte, em vez de apagar o passado, transforma esse passado em performance, estilo, criatividade e invenção. Ou seja, a marca histórica dolorosa reaparece, mas ressignificada em linguagem artística e lúdica. Por isso o gabarito é a letra D: o texto destaca a capacidade do esporte de reconfigurar sequelas históricas em expressão artística. O futebol brasileiro, nesse raciocínio, não é apenas entretenimento ou mobilidade social; ele também funciona como forma simbólica de reorganizar contradições profundas da sociedade. Em linguagem de prova, a chave está em perceber que o autor não faz uma denúncia direta nem uma simples celebração do esporte. Ele interpreta o futebol como uma forma cultural que traduz, com drible e improviso, aquilo que a história social brasileira deixou como herança.