As teorias decoloniais integram um campo epistêmico voltado a desnudar e denunciar a dependência dos países ditos em desenvolvimento perante a hegemonia dos países europeus e dos Estados Unidos. A respeito do giro decolonial, analise as afirmativas a seguir. I. O pensamento decolonial baseia-se no desconstrutivismo e pós-estruturalismo dos estudos teóricos de Foucault, Derrida e Lacan, considerados estratégicos para superar a imposição ideológica do universalismo iluminista. II. As teorias decoloniais denunciam a existência de uma colonialidade do poder e do saber, referidas à constituição de um padrão de dominação europeu centrado na ideia de raça e na validação de saberes científicos e modos de conhecimento tipicamente europeus em detrimento de saberes outros. III. Para os teóricos decoloniais é necessário descolonizar os campos do saber, do ser e do poder pois o eurocentrismo organizou os saberes que constituem a colonialidade, invisibilizando identidades e conhecimentos milenares dos povos colonizados. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa sustenta que apenas a afirmativa I descreve corretamente o giro decolonial, isto é, que ele se apoiaria principalmente em Foucault, Derrida e Lacan para superar o universalismo iluminista. O problema é que, embora esses autores dialoguem com críticas ao eurocentrismo, eles não são o fundamento central da teoria decolonial, que se estrutura sobretudo em torno da crítica à colonialidade do poder, do saber e do ser, em autores como Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Enrique Dussel. Por isso, a alternativa deixa de lado o núcleo conceitual próprio do pensamento decolonial.
- B)I e II, apenas.
Aqui se afirma que as proposições I e II estariam corretas. A I é problemática porque atribui ao pensamento decolonial uma base teórica centrada em Foucault, Derrida e Lacan, o que aproxima mais o enunciado de um pós-estruturalismo europeu do que da matriz decolonial latino-americana. Já a II está bem formulada ao falar de colonialidade do poder e do saber, de raça como eixo da dominação e da hierarquização dos conhecimentos; por isso, o erro da alternativa está em incluir a I.
- C)I e III, apenas.
Esta opção combina a I com a III, como se a decolonialidade se apoiasse em Foucault, Derrida e Lacan e, ao mesmo tempo, defendesse a descolonização do saber, do ser e do poder. A III expressa corretamente uma tese central do giro decolonial, pois a crítica ao eurocentrismo busca precisamente recuperar saberes e identidades historicamente invisibilizados pela colonialidade. O equívoco está na I, que desloca a base teórica do decolonial para autores pós-estruturalistas europeus que não constituem seu eixo explicativo principal.
- D)II e III, apenas.
A alternativa reúne as afirmativas II e III, que sintetizam o núcleo do pensamento decolonial. A II é correta ao reconhecer a colonialidade do poder e do saber, isto é, a articulação entre dominação racial, imposição de formas europeias de conhecimento e desvalorização de outras epistemologias. A III também está correta porque o giro decolonial propõe descolonizar saber, ser e poder, enfrentando o eurocentrismo que apagou identidades e conhecimentos dos povos colonizados.
- E)I, II e III.
Esta alternativa diz que I, II e III estariam corretas, mas isso não se sustenta porque a afirmativa I é imprecisa. O pensamento decolonial não tem como base principal o desconstrutivismo e o pós-estruturalismo de Foucault, Derrida e Lacan; sua formulação nasce da crítica latino-americana à modernidade/colonialidade e à colonialidade do poder, do saber e do ser. Assim, apesar de II e III estarem adequadas, a presença da I torna a alternativa incorreta.
Gabarito: D
As teorias decoloniais surgem para questionar a ideia de que a Europa e os Estados Unidos seriam o centro natural da produção de conhecimento e do modelo de sociedade “correto”. Em vez disso, elas mostram que a colonização não terminou de verdade com a independência política: ela continua na forma de colonialidade, isto é, na hierarquia de saberes, poderes e modos de existir. No giro decolonial, autores como Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Enrique Dussel e Ramón Grosfoguel criticam a colonialidade do poder e do saber. A crítica é direta: a raça foi usada como critério de dominação, e o conhecimento europeu foi tratado como universal, enquanto saberes indígenas, africanos e latino-americanos foram desvalorizados ou apagados. Por isso, faz sentido falar em descolonizar o saber, o ser e o poder. A ideia é abrir espaço para epistemologias outras, recuperando experiências e conhecimentos que o eurocentrismo tentou invisibilizar. É uma virada importante na sociologia da desigualdade, porque mostra que a dominação não é só econômica ou política, mas também cultural e cognitiva. Agora, o pulo do gato da questão: a afirmativa I está errada porque atribui o pensamento decolonial ao desconstrutivismo e ao pós-estruturalismo de Foucault, Derrida e Lacan, quando o núcleo do giro decolonial está na crítica à colonialidade e na produção latino-americana de autores próprios. Já as afirmativas II e III estão corretas, pois descrevem exatamente a denúncia da colonialidade do poder e do saber e a necessidade de descolonizar os campos do conhecimento, da existência e da dominação. Por isso, o gabarito é D.