Todo o pensamento liberal-democrático pode resumir-se na frase célebre de Bentham: ‘A maior felicidade para o maior número’. Não é difícil perceber que essa ideia está em contraste direto com qualquer forma de convívio humano baseada nos valores cordiais. Todo afeto entre os homens funda-se forçosamente em preferências. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Considerando o trecho, é correto afirmar que, em termos weberianos, a incompatibilidade entre liberalismo e cordialidade funda-se no conflito desta última com o princípio:
- A)do estado de bem-estar.
Errada, porque estado de bem-estar é uma política social do Estado, e não o princípio weberiano que explica o choque entre afeto pessoal e impessoalidade institucional.
- B)da burocracia moderna.
Certa, porque a burocracia moderna exige impessoalidade, regras gerais e decisões racionais, o que entra em conflito com a cordialidade baseada em preferências pessoais.
- C)da reprodução social.
Errada, porque reprodução social é um conceito ligado à manutenção de estruturas sociais ao longo do tempo, não à oposição entre cordialidade e racionalidade burocrática.
- D)da consciência de classe.
Errada, porque consciência de classe é um conceito mais associado a Marx, e não ao tipo de análise weberiana pedido no enunciado.
- E)da liderança carismática.
Errada, porque liderança carismática depende de qualidades pessoais excepcionais, o oposto do funcionamento racional e impessoal que o trecho problematiza.
Gabarito: B
Sérgio Buarque, ao falar do "homem cordial", aponta um jeito de agir guiado por vínculos pessoais, preferências, afetos e antipatia, como se a vida social fosse administrada pela proximidade, e não por regras impessoais. Isso ajuda a entender por que a cordialidade entra em choque com a lógica liberal-democrática descrita no trecho: o liberalismo moderno quer decidir as coisas por critérios gerais, iguais para todos, sem favoritismo afetivo. Em termos weberianos, isso se aproxima do princípio da burocracia moderna. Para Weber, a burocracia é marcada por racionalidade, impessoalidade, hierarquia definida, regras estáveis e tratamento igual dos casos semelhantes. Ela funciona justamente quando a decisão não depende de simpatia, parentesco ou amizade, mas de normas objetivas. A cordialidade, ao contrário, tende a personalizar relações que deveriam ser impessoais. É aí que mora o conflito: se o vínculo social é conduzido pela preferência pessoal, a engrenagem burocrática emperra. Pense na versão curta: a burocracia pede formulário; a cordialidade quer resolver no abraço, no apelo e no conhecido de alguém. Por isso, a alternativa B está correta. O texto de Sérgio Buarque dialoga com Weber ao mostrar que a sociabilidade baseada em afetos e preferências colide com a racionalização impessoal da vida moderna, típica da burocracia.