Para o sociólogo Zygmunt Bauman, Identidade e Política Identitária se tornaram conceitos-chave para o entendimento da vida social na era da "modernidade líquida", respondendo a indagações como: qual é o espaço do eu e do outro? Qual é a medida da liberdade individual? E do respeito ao próximo, com todas as suas diferenças? É possível construir uma identidade sem levar a alteridade – o outro – em conta? Com base nessa reflexão sociológica, analise as afirmativas a seguir sobre políticas de identidade na era da “modernidade líquida”. I. Políticas de identidade são um tipo de agência importante para “minorias numéricas”, como indígenas, pessoas com deficiência e grupos LGBTI+, e também para “maiorias minorizadas na representação”, como mulheres e pessoas negras no Brasil, por exemplo. II. Políticas de identidade geram sentimentos de pertencimento pautados em realidades ontológicas, seja de caráter étnico, linguístico ou de origem nacional, entre outros. III. Políticas de identidade funcionam como âncoras sociais, em relação a situações políticas expressas em termos de raça, gênero, país, família, classe ou local de nascimento, visando o a pluralidade de direitos e a reparação de diferenças. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
Essa alternativa sustenta que apenas a afirmativa I descreve adequadamente as políticas de identidade. A I realmente faz sentido ao mostrar que esses movimentos são instrumentos de visibilidade e reivindicação para grupos sub-representados ou socialmente vulnerabilizados, como indígenas, pessoas com deficiência, LGBTI+, mulheres e pessoas negras. Porém, ela ignora que a questão também traz outras duas afirmações que ampliam a análise de Bauman sobre pertencimento e reparação de diferenças.
- B)I e II, apenas.
Aqui se afirma que as proposições I e II estariam corretas. A I está bem construída ao relacionar políticas de identidade à organização de grupos que buscam reconhecimento e representação política; já a II erra ao tratar identidade como se nascesse de realidades ontológicas fixas, étnicas ou nacionais, quando o ponto central em Bauman é justamente a fluidez e a construção contingente das identidades na modernidade líquida. Por isso, a presença da II invalida essa alternativa.
- C)I e III, apenas.
Essa alternativa reúne as afirmativas I e III, que são as compatíveis com a reflexão de Bauman. A I mostra a função política das identidades para grupos que lutam por reconhecimento e representação, enquanto a III enfatiza a ideia de identidades como âncoras sociais e como base para ampliar direitos e reparar desigualdades. Como a II incorre em essencialismo ao atribuir às identidades uma base ontológica fixa, o conjunto correto é mesmo I e III.
- D)II e III, apenas.
Esta alternativa combina as afirmativas II e III. A III está adequada porque entende as políticas de identidade como formas de ancoragem social e de reivindicação de direitos diante de desigualdades de raça, gênero, classe e origem; já a II desvia do pensamento de Bauman ao sugerir pertencimentos fundados em essências étnicas, linguísticas ou nacionais, como se a identidade fosse algo natural e estável. O problema, portanto, está na inclusão da II, que contradiz a lógica da modernidade líquida.
- E)I, II e III.
Aqui se diz que as três afirmativas estariam corretas. A I e a III dialogam com a noção de políticas de identidade como resposta à invisibilidade, à disputa por reconhecimento e à busca de reparação em contextos de desigualdade. A II, porém, é incompatível com essa abordagem porque transforma identidade em algo ontologicamente dado, quando o debate de Bauman destaca identidades móveis, negociadas e produzidas em relações sociais, e não essências fixas.
Gabarito: C
Bauman ajuda a pensar que, na modernidade líquida, as identidades deixam de ser algo fixo e viram uma busca permanente de pertencimento. Em vez de uma essência pronta, o sujeito passa a negociar quem é em meio a mudanças, inseguranças e relações sociais mais instáveis. Por isso, as políticas de identidade ganham força: elas permitem que grupos se reconheçam, se organizem e reivindiquem direitos a partir de experiências comuns de exclusão ou invisibilização. A afirmativa I está correta porque políticas de identidade são importantes tanto para grupos minoritários em número, como indígenas e pessoas com deficiência, quanto para grupos historicamente minorizados na representação e no poder, como mulheres e pessoas negras. Em concursos, a banca gosta desse ponto: não é só questão de quantidade, mas de posição social e política. A afirmativa III também está correta porque essas políticas funcionam como formas de afirmação e proteção social diante de desigualdades ligadas a raça, gênero, classe, origem e território. Elas buscam ampliar direitos, dar visibilidade e reparar desvantagens históricas. Isso dialoga com a ideia de reconhecimento, muito trabalhada na teoria social contemporânea. Já a afirmativa II está errada porque trata a identidade como algo ontológico, isto é, como se fosse uma essência fixa e natural. Em Bauman, o contrário é mais adequado: identidades são construídas socialmente, mudam com o contexto e são atravessadas por relações de poder e pertencimento.