Pretendo mostrar como a transformação do samba em música nacional foi o coroamento de uma tradição secular de contatos entre vários grupos sociais na tentativa de inventar a identidade e a cultura popular brasileiras. Não é minha intenção negar a existência da repressão a determinados aspectos dessa cultura popular, mas apenas mostrar como a repressão convivia com outros tipos de interação social, alguns deles até mesmo contrários à repressão. VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. Adaptado. Considerando o trecho acima, é correto afirmar que, para o autor, a construção do samba como símbolo da identidade brasileira, foi
- A)uma consequência necessária da dinâmica de luta de classes no ambiente social brasileiro.
Errada, porque o texto não trata a formação do samba como resultado necessário de luta de classes, mas de interações sociais mais amplas e complexas.
- B)a expressão da resistência dos grupos oprimidos diante da absoluta rejeição de sua cultura pelas elites.
Errada, porque o autor não diz que houve rejeição absoluta da cultura popular pelas elites, e sim repressão convivendo com outros tipos de relação.
- C)uma invenção das elites letradas que se apropriaram parcialmente de expressões populares.
Errada, porque o trecho não atribui a invenção do samba apenas às elites letradas, embora elas possam ter participado do processo.
- D)a prova de que as relações raciais no Brasil seguem um padrão democrático, harmônico e pacífico.
Errada, porque o autor não defende harmonia racial no Brasil; ao contrário, reconhece repressão e desigualdades.
- E)uma resultante da persistente interação entre estratos da sociedade brasileira a despeito das desigualdades.
Certa, porque o texto afirma que o samba se tornou símbolo nacional por meio da interação persistente entre diferentes estratos sociais, apesar da repressão e das desigualdades.
Gabarito: E
Hermano Vianna está dizendo algo bem importante: o samba não virou símbolo nacional por mágica, nem apenas por resistência isolada dos grupos populares. Para ele, essa construção foi resultado de contatos contínuos entre grupos sociais diferentes - elites, intelectuais, músicos, Estado e camadas populares - que, mesmo em meio à repressão, também criaram trocas, apropriações e negociações culturais. Ou seja, a cultura popular brasileira não foi formada só no conflito aberto, como se a sociedade estivesse sempre em guerra total. Houve repressão, sim, mas também convivência, circulação e até valorização de elementos que vinham das classes populares. O samba, nesse sentido, foi sendo reelaborado até ganhar status de símbolo nacional. É por isso que o gabarito é a letra E: o autor entende o samba como produto de uma interação persistente entre estratos sociais, apesar das desigualdades. Isso combina com a ideia de construção social da identidade nacional, muito trabalhada nas ciências sociais, em que símbolos nacionais são fruto de disputas, acordos e rearranjos culturais, e não apenas de imposição pura de um único grupo. Então, se você viu a questão e pensou em repressão, cuidado: o texto não nega a repressão, mas insiste que ela convivia com outros movimentos sociais. O foco não é isolamento, e sim mistura, contato e negociação.