Leia as considerações de Émile Durkheim sobre o fato religioso: 1. Para fazer o indivíduo submeter-se a ela [coerção] de boa vontade, não é preciso recorrer a nenhum artifício; basta fazê-lo tomar consciência de seu estado de dependência e de inferioridade naturais - quer ele faça disso uma representação sensível e simbólica pela religião, quer chegue a formar uma noção adequada e definida pela ciência. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 124. 2. Não há, pois, religiões que sejam falsas. Todas são verdadeiras à sua maneira; todas respondem, ainda que de maneiras diferentes, a determinadas condições da vida humana. As Formas Elementares da Vida Religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p.31. Com base nos trechos, assinale a afirmativa que descreve corretamente o significado do fato religioso para o sociólogo.
- A)A religião é o epicentro do processo de racionalização da sociedade ocidental, sendo motor de mudança.
Errada, porque a ideia de religião como motor da racionalização da sociedade ocidental se aproxima mais de Max Weber do que de Durkheim.
- B)A religião é o aparato ideológico usado como instrumento de legitimação das desigualdades.
Errada, porque essa leitura da religião como instrumento de legitimação das desigualdades é típica de abordagens marxistas, não da perspectiva funcional de Durkheim.
- C)A religião é a forma organizada e institucionalizada do sagrado que produz normas coletivas para a ordem social.
Certa, porque expressa a religião como fato social ligado ao sagrado, com função de produzir normas, integração e ordem coletiva.
- D)A religião é um sistema aleatório de símbolos que torna mais tolerável o inexplicável para os indivíduos.
Errada, porque Durkheim não trata a religião como um sistema aleatório, mas como uma construção social organizada e dotada de função coletiva.
Gabarito: C
Durkheim entende a religião como um fato social: algo coletivo, externo ao indivíduo e capaz de exercer coerção sobre ele. Nos trechos, isso aparece quando ele diz que a religião ajuda a tornar consciente a dependência humana em relação ao grupo e às forças sociais, dando forma simbólica a essa experiência. Ou seja, a religião não é só uma crença íntima, mas uma prática social que organiza a vida coletiva. Para Durkheim, o ponto central da religião é a distinção entre sagrado e profano. O sagrado reúne crenças, ritos e representações que a sociedade considera especiais e que acabam produzindo regras, valores e padrões de conduta. Em linguagem simples: a religião cria sentido, reforça vínculos e ajuda a manter a ordem social funcionando sem precisar de sirene. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela descreve corretamente a religião como uma forma organizada e institucionalizada do sagrado, que produz normas coletivas para a ordem social. Isso combina com a ideia durkheimiana de que toda religião, mesmo diferente das outras, responde a necessidades humanas e sociais específicas, tendo função de integração e regulação. As outras alternativas caem em leituras de outros autores ou simplificações exageradas. Durkheim não reduz a religião a instrumento ideológico de dominação, nem a vê como motor da racionalização, e muito menos como algo aleatório e apenas consolador. Para ele, a religião tem função social objetiva, não é enfeite nem acaso.