Em uma das primeiras aulas de sociologia no Ensino Médio, o docente propõe um exercício de desnaturalização da instituição escolar, partindo da leitura do trecho a seguir sobre a escola: “É provavelmente por um efeito de inércia cultural que continuamos tomando o sistema escolar como um fator de mobilidade social, segundo a ideologia da “escola libertadora”, quando, ao contrário, tudo tende a mostrar que ele é um dos fatores mais eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural.” BOURDIEU, P. A escola conservadora: As desigualdades frente à escola e à cultura. In: BOURDIEU, P. Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 41. Com base no trecho, os alunos concluem que, para o autor, a educação escolar é um instrumento de
- A)socialização, pois promove um processo de adaptação dos alunos ao grupo, tornando-os membros funcionais da sociedade.
Errada, porque Bourdieu não vê a escola principalmente como espaço de adaptação social neutra, mas como instituição que também reproduz desigualdades.
- B)superação das desigualdades, uma vez que a educação promove a ascensão social e quebra o círculo vicioso da degradação social.
Errada, porque o texto critica justamente a ideia de que a escola superaria as desigualdades e promoveria ascensão social para todos.
- C)violência simbólica, vale dizer, criação do espaço simbólico em que as disputas pelo poder ocorrem e produzem, paulatinamente, uma desalienação.
Errada, porque violência simbólica em Bourdieu não é criação de um espaço de desalienação, e sim imposição de uma dominação aceita como legítima.
- D)reprodução cultural e social, pois a escola transmite e legitima a cultura da elite, nivelando os estudantes por esse padrão e explicando o êxito em termos de aptidão.
Certa, porque a escola tende a transmitir e legitimar a cultura dominante, convertendo diferenças sociais em aparentes diferenças de mérito e aptidão.
- E)construção do ethos de classe, uma vez que a convivência de alunos com origens sociais diversas promove um sentimento de pertencimento à classe escolar, igualando as diferenças.
Errada, porque a convivência escolar não apaga automaticamente as diferenças de classe nem produz igualdade real entre alunos de origens sociais distintas.
Gabarito: D
Pierre Bourdieu ajuda a gente a enxergar a escola sem maquiagem. Em vez de tratar a instituição escolar como se ela fosse automaticamente justa e neutra, ele mostra que ela pode funcionar como peça importante na manutenção das diferenças sociais. Ou seja: a escola não apenas ensina conteúdos, ela também seleciona, valoriza certos repertórios culturais e transforma vantagens de origem em sucesso escolar. No trecho, Bourdieu critica a ideia de que a escola seria uma grande escada de mobilidade social para todos. Para ele, o sistema escolar tende a legitimar desigualdades já existentes, porque favorece os alunos que já chegam com a cultura mais próxima da cultura valorizada pela escola, geralmente a cultura das classes dominantes. Assim, o desempenho escolar parece resultado de talento natural, quando muitas vezes reflete herança cultural e social. É por isso que a alternativa D está correta. Ela resume bem a noção de reprodução cultural e social: a escola transmite e valida a cultura da elite, trata como mérito individual aquilo que foi, em grande parte, vantagem herdada e ajuda a manter a estrutura social. Bourdieu é um autor-chave para entender esse mecanismo, especialmente com conceitos como capital cultural, habitus e violência simbólica. Em prova, sempre desconfie quando a questão tentar vender a escola como solução mágica das desigualdades. Bourdieu geralmente vai na contramão desse otimismo: para ele, a escola pode até abrir portas, mas também pode ser um filtro elegante para manter as mesmas pessoas nos mesmos lugares.