O preto, como o trabalhador branco, é vítima da estrutura capitalista de nossa sociedade; tal situação desvenda-lhe a estreita solidariedade, para além dos matizes da pele, com certas classes de europeus oprimidos como ele; incita-o a projetar uma sociedade sem privilégio em que a pigmentação da pele será tomada como simples acidente. Mas, embora a opressão seja única, ela se circunstancia segundo a história e as condições geográficas: o preto sofre o seu jugo, como preto, a título de nativo colonizado ou de africano deportado. E, posto que o oprimem em sua raça, e por causa dela, é de sua raça, antes de tudo, que lhe cumpre tomar consciência. Aos que, durante séculos, tentaram debalde, porque era negro, reduzi-lo ao estado de animal, é preciso que ele os obrigue a reconhecê-lo como homem. Ora, no caso, não há escapatória, nem subterfúgios, nem passagem de linha a que possa recorrer; um judeu branco entre os brancos pode negar que seja judeu, declarar-se homem entre homens. O negro não pode negar que seja negro ou reclamar para si esta abstrata humanidade incolor: ele é preto. Fonte: SARTRE, Jean- Paul. Orfeu negro. In: Reflexão sobre o racismo. São Paulo: Difel, 1960, p. 111. De acordo com trecho, assinale a afirmativa que interpreta corretamente a concepção de Sartre sobre os conceitos de raça e classe.
- A)Subestima a experiência histórica como determinante para confirmar a coesão presente no significado de classe.
Errada, porque o texto não subestima a experiência histórica, mas a coloca no centro da compreensão da opressão racial e social.
- B)Reproduz o discurso de democracia racial ao considerar única a opressão sofrida pelos grupos sociais.
Errada, porque o trecho não defende democracia racial nem diz que a opressão é única de modo harmonioso; ele destaca a especificidade histórica do racismo.
- C)Estabelece relação entre raça e classe compreendendo sua indissociabilidade para reivindicação de direitos.
Certa, porque o autor relaciona raça e classe como dimensões articuladas da opressão, fundamentais para a reivindicação de direitos.
- D)Reduz a noção de raça a classe social ao identificar a opressão aos negros como socioeconômica.
Errada, porque Sartre não reduz raça à classe social; ele reconhece que o negro sofre uma opressão específica, racial e histórica, além da exploração de classe.
Gabarito: C
O trecho de Sartre mostra uma ideia importante: raça e classe não vivem em caixinhas separadas. A opressão do negro aparece ligada tanto à estrutura capitalista quanto à experiência histórica do colonialismo e do racismo. Ou seja, ele não está falando de uma luta só econômica, nem de uma luta só identitária. É uma leitura combinada, mais “vida real” e menos teoria de vitrine. No texto, o negro é visto como alguém que sofre como trabalhador explorado, mas também como negro, marcado por uma história específica de dominação. Por isso, a consciência política precisa nascer dessa dupla experiência: a exploração de classe e a violência racial. Essa é a chave da questão. A alternativa C acerta porque expressa justamente essa relação entre raça e classe, entendendo que elas se cruzam e não podem ser tratadas como se uma anulasse a outra. Em termos sociológicos, isso conversa com a ideia de interseccionalidade, isto é, opressões diferentes que se somam e se articulam na vida social. Em linguagem de prova: não basta olhar só para renda ou só para cor da pele. As outras opções escorregam porque ou separam demais os fenômenos, ou reduzem a raça à economia, ou ainda colocam o texto como defensor de uma suposta harmonia racial. Sartre faz o contrário: ele mostra que a desigualdade racial tem história, contexto e impacto concreto na luta por direitos.