← Questões de Sociologia

Sociologia · FGV · 2023

Questão comentada de Sociologia

Para publicar em periódicos da metrópole, deve-se escrever seguindo os géneros da metrópole, citar a literatura da metrópole e tornar-se parte do discurso lá produzido. Para um cientista social, isso significa tanto descrever sua própria sociedade como se fosse a metrópole, suprimindo sua especificidade histórica, ou descrevê-la em termos comparativos, situando sua especificidade nos parâmetros da metrópole. Esse “metrocentrismo” da imaginação sociológica é mais evidente nas teorias da "globalização". De todos os tópicos sociológicos, é nesse que as relações entre metrópole e periferia são mais nítidas. Ainda assim, a abundante literatura sociológica feita no Norte frequentemente projeta características da modernidade ou pósmodernidade da metrópole para outros espaços. Uma estratégia de resistência à essa situação, é a busca por sistemas indígenas de conhecimento, entendidos como contextos para produção de um conhecimento que esteve originalmente fora do sistema eurocentrado e que talvez ainda possa estabelecer uma base para autonomia. CONNELL, Raewyn. A iminente revolução na teoria social. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v.27, n. 80, 2012. (Adaptado) As afirmativas a seguir apresentam interpretações coerentes do texto, à exceção de uma. Assinale-a.

Gabarito: B

O texto de Raewyn Connell critica um problema bem conhecido na Sociologia: quem produz teoria nem sempre parte do mesmo lugar social e geopolítico, e isso influencia o que vira "conhecimento válido". Em outras palavras, a autora chama atenção para o eurocentrismo e para a tendência de a metrópole virar a régua para medir o mundo inteiro. Isso aparece quando categorias criadas no Norte global são usadas como se servissem para explicar qualquer sociedade, sem considerar história, contexto e desigualdades entre centro e periferia. Repare que a ideia central não é negar comparações entre sociedades, mas criticar quando elas apagam a especificidade dos lugares periféricos e reforçam a superioridade simbólica da metrópole. Por isso, o texto valoriza a busca por sistemas indígenas de conhecimento, isto é, formas de produzir teoria que não dependam apenas da matriz eurocentrada. É uma crítica ao modo desigual como o conhecimento circula no mundo, e não uma defesa de um referencial baseado em antagonismos geográficos. O gabarito é a letra B porque ela inverte o sentido do texto. O trecho não rompe com antagonismos geográficos; ao contrário, ele mostra que esses antagonismos existem e estruturam a produção sociológica, especialmente na relação metrópole-periferia. A autora denuncia exatamente a permanência dessas primazias geográficas e propõe resistência a elas. Em termos de Sociologia, isso dialoga com o nascimento e desenvolvimento da disciplina fora de um centro único, mas a discussão aqui é mais contemporânea: trata-se da crítica ao eurocentrismo na teoria social. Então, se a questão falar em metrópole, periferia, Norte global, hegemonia intelectual e conhecimento situado, você já acende o alerta.

Continue treinando

Questões relacionadas