Em sala de aula, o docente apresenta o conceito de interseccionalidade, explicando que ele permite investigar como a sobreposição de identidades sociais, particularmente das identidades minoritárias, está relacionada a sistemas de dominação e de discriminação. Na sequência, analisa com os alunos o relato a seguir: “Em 1851, Sojouner Truth, abolicionista e ativista para os direitos das mulheres, discursou na Convenção para os Direitos das Mulheres de Ohio (Estados Unidos), interpelando de forma eloquente o feminismo branco e tornando-se um ícone dos estudos raciais. No fim de seu discurso, Sojouner indagou: ‘Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?’” Adaptado de HOLLANDA, Heloisa Buarque (org.). Pensamento Feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 14. As afirmativas a seguir apresentam interpretações coerentes do trecho à luz da categoria analítica de interseccionalidade, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)O testemunho de Sojouner Truth denuncia a ilusão do feminismo oitocentista de uma sororidade universal e coloca as demandas específicas das mulheres negras.
Certa, porque aponta a crítica à ideia de uma sororidade universal e destaca as demandas específicas das mulheres negras.
- B)O relato da abolicionista denuncia que o pensamento feminista obstaculiza a luta contra a escravidão das mulheres afro-americanas.
Errada, porque o trecho não diz que o feminismo, em si, impede a luta contra a escravidão, mas que ele pode excluir a experiência das mulheres negras.
- C)O episódio mostra a heterogeneidade da experiência histórica feminina e a natureza interconectada das estruturas sociais, econômicas e identitárias.
Certa, porque mostra que a experiência feminina não é homogênea e que as opressões se articulam de forma interdependente.
- D)O trecho permite entender como as diferenças de raça, classe e gênero se interrelacionam, em articulação a sistemas específicos de poder.
Certa, porque lê corretamente a interseção entre raça, classe e gênero em sistemas de poder distintos e combinados.
- E)A indagação da ativista revela a insatisfação das mulheres negras com a desconsideração das desigualdades sociorraciais na luta pela igualdade dos direitos das mulheres.
Certa, porque evidencia a crítica das mulheres negras à invisibilidade das desigualdades sociorraciais dentro da luta por direitos das mulheres.
Gabarito: B
Interseccionalidade é a ideia de que as desigualdades não andam sozinhas: raça, gênero, classe e outros marcadores se cruzam e produzem experiências diferentes de opressão e discriminação. Então, quando você lê um relato como o de Sojourner Truth, o ponto não é olhar só para "mulher" em abstrato, mas perceber que ser mulher negra e escravizada significava viver uma forma específica de exclusão que o feminismo branco da época muitas vezes não enxergava. O discurso dela é famoso justamente porque expõe essa cegueira: a experiência das mulheres negras não cabia na imagem universal da mulher usada por parte do feminismo oitocentista. Em outras palavras, a luta por direitos das mulheres não era vivida do mesmo jeito por todas, porque as hierarquias raciais e de classe também estavam em cena. É o tipo de análise que a interseccionalidade ajuda a fazer muito bem. Por isso, a alternativa B está errada. Ela sugere que o relato denuncia o próprio pensamento feminista como obstáculo à luta contra a escravidão das mulheres afro-americanas, o que exagera e desloca o sentido do texto. Sojourner Truth critica a exclusão das mulheres negras dentro daquele feminismo, não o feminismo como uma força geral contrária à abolição. As demais alternativas caminham na direção correta porque reconhecem a sobreposição de opressões e a diversidade da experiência feminina. Em prova, desconfie quando a opção transformar uma crítica à invisibilização das mulheres negras em uma condenação total do feminismo.