Se inibimos ou escondemos dos olhos do estrangeiro ou do inocente o ‘Você sabe com quem está falando?’, deixando de integrá-lo em nossa visão corrente do que fabrica o Brasil, é certamente porque o rito revela conflito e, vale reiterar, nós somos avessos aos conflitos. Em um mundo que tem que se mover obedecendo às engrenagens de uma hierarquia que deve ser vista como algo natural, os conflitos contidos nas interrogações contundentes tendem a ser tomados como irregularidades. DAMATTA, Roberto. Você sabe com quem está falando? Rio de Janeiro: Rocco, 2020. Adaptado. Segundo o autor, a expressão “Você sabe com quem está falando?”
- A)é expressão isolada do abuso de poder por parte de determinados indivíduos detentores de status.
Errada, porque a expressão não é apenas abuso individual de poder, mas um ritual social que revela uma lógica mais ampla de hierarquia e status.
- B)manifesta uma característica tipicamente brasileira aos olhos dos observadores estrangeiros.
Errada, porque o foco de DaMatta não é a visão do estrangeiro, e sim o que essa fala revela sobre a organização social brasileira.
- C)explicita de maneira perturbadora a naturalização tácita de papéis e posições sociais.
Certa, porque a expressão mostra como papéis e posições sociais são tratados como naturais, tornando a hierarquia algo aparentemente óbvio.
- D)mostra que mesmo em sociedades igualitárias é possível a ocorrência de situações de arbitrariedade.
Errada, porque a questão não fala de sociedades igualitárias em geral, mas de uma característica específica da sociabilidade brasileira descrita por DaMatta.
- E)é uma exceção à sociabilidade brasileira, em que não há lugar para conflitos e hierarquias rígidas.
Errada, porque a frase não é uma exceção à vida social brasileira; ela expõe justamente um aspecto recorrente dela, ligado a conflito e hierarquia.
Gabarito: C
Roberto DaMatta usa a frase "Você sabe com quem está falando?" como um símbolo de como as relações sociais no Brasil muitas vezes são atravessadas por hierarquia, status e tratamento diferenciado. A ideia não é apenas que alguém esteja sendo arrogante, mas que, em certas situações, a posição social da pessoa tenta se impor sobre a regra impessoal. Em vez de uma convivência baseada só em normas iguais para todos, aparece a lógica do "quem é você" e "quem sou eu". Isso revela um conflito entre a igualdade formal e os papéis sociais percebidos como naturais. Por isso, a fala incomoda tanto: ela expõe, de forma meio escancarada, que a hierarquia está funcionando como se fosse normal, quase automática. Para DaMatta, esse tipo de situação mostra uma tensão típica da sociedade brasileira entre a regra universal e o favor, entre a norma e a pessoa. Não é só grosseria individual; é um ritual social que escancara a naturalização de lugares sociais diferentes. É exatamente aí que a alternativa C acerta. A expressão explicita de maneira perturbadora essa naturalização tácita de papéis e posições sociais, porque transforma a hierarquia em algo que parece óbvio, legítimo e esperado. Em outras palavras: não é só um "escândalo de etiqueta", é uma pequena aula de sociologia sobre como o poder se veste de costume. Na leitura de DaMatta, esse é um traço importante da cultura brasileira: conflitos e desigualdades nem sempre aparecem como conflito aberto, mas como interrupção da ordem esperada. A frase revela justamente isso.