As pessoas gastam muito tempo questionando os efeitos dos meios de comunicação, acreditando numa relação simples e direta entre causa e efeito. Supõem que as afirmações transmitidas por qualquer mídia produzem imediatas mudanças de opinião ou, o que também seria um efeito, reforçam a opinião da audiência. Em geral, a relação entre os meios de comunicação e a audiência tem sido comparada a uma conversa privada entre duas pessoas, na qual uma diz algo e a outra termina reforçada ou convertida. A influência real da mídia é muito mais complexa e muito diferente do modelo de conversa privada e individual. Os meios gravam os estereótipos em nossas mentes, mediante inumeráveis repetições e isso serve de pavimento do “mundo intermediário” ou do pseudo ambiente que surge entre o público e o mundo objetivo exterior. Esta é a consequência da seleção do que deve ser atendido pelo público, do que deve ser considerado urgente, dos assuntos que devem importar a todo o mundo. Tudo isso é decidido pela mídia. NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. A espiral do silêncio: opinião pública nosso tecido social. Florianópolis: Estudos Nacionais, 2017. (Adaptado) De acordo com a noção de comunicação de massa de Noelle-Neumann, assinale a afirmativa que descreve corretamente a relação entre mídia e poder.
- A)A uniformização dos interesses da audiência confere poder ao público que desempenha papel de regulador dos métodos de veiculação da comunicação.
Errada, porque a teoria não coloca o público como regulador da mídia, mas como alvo da formação de opinião pelo ambiente criado pelos meios.
- B)A difusão da informação em larga escala, que desempenha função didática e de democratização, exerce poder ao alcançar grupos sociais marginalizados.
Errada, porque a autora não trata a mídia principalmente como instrumento de democratização, e sim como agente que seleciona e reforça percepções sociais.
- C)A consonância do processo de difusão da informação, reconhecida na reiteração do conteúdo veiculado, exerce poder ao ampliar a exposição da audiência à informação.
Certa, porque a repetição e a ampla difusão dos conteúdos fortalecem a capacidade da mídia de moldar a percepção coletiva e influenciar opiniões.
- D)A difusão seletiva dos meios de comunicação, que tem como elemento central a divulgação de informações, exerce poder ao favorecer o processo crítico do receptor.
Errada, porque a seleção midiática não favorece necessariamente o senso crítico do receptor; muitas vezes ela reduz a pluralidade e reforça estereótipos.
Gabarito: C
Noelle-Neumann trabalha com a ideia de que a mídia não atua só “informando”, como se fosse um espelho neutro da realidade. Para ela, os meios de comunicação ajudam a construir um pseudoambiente: um mundo intermediário feito de seleção, repetição e destaque de certos temas, valores e estereótipos. Em outras palavras, a mídia não apenas mostra o que existe, ela também decide o que parece importante. Isso se liga ao poder porque quem seleciona e repete conteúdos influencia a percepção do público sobre o que é urgente, aceitável e dominante. Assim, a comunicação em massa molda o clima de opinião e pode gerar conformidade social, o que conversa com a teoria da espiral do silêncio: muita gente prefere não discordar quando percebe que sua posição parece minoritária. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela acerta ao dizer que a consonância do processo de difusão, com a reiteração do conteúdo veiculado, exerce poder ao ampliar a exposição da audiência à informação. Aqui, o poder da mídia não está em convencer por uma conversa privada, mas em repetir mensagens até elas parecerem naturais e amplamente compartilhadas. As outras alternativas escapam da lógica da autora, porque atribuem à audiência um papel de controle, à mídia uma função essencialmente democratizadora, ou supõem que a seleção midiática favorece automaticamente o pensamento crítico. Na teoria de Noelle-Neumann, a coisa é bem menos otimista: a repetição pesa, e pesa bastante.