O esquecimento do passado colonial e do passado da imigração é conveniente e necessário para a construção da memória da “velha” imigração como pouco problemática, composta quase exclusivamente de “brancos”, e a construção da Europa Ocidental e de alguns países da América, principalmente os Estados Unidos, Canadá e Argentina como países essencialmente brancos. A ideia da “imigração branca” só podia surgir com o esquecimento da racialização dos povos da periferia da Europa no passado, tratados como outras “raças” essencialmente inferiores. Assim como, o esquecimento das múltiplas intervenções políticas do passado para inibir ou proibir a imigração de não europeus e manter a predominância de brancos nos principais países de imigração da Europa, da América do Norte e da Oceania. MONSMA, Karl; TRUZZI, Oswaldo. Amnésia social e representações de imigrantes: consequências do esquecimento histórico e colonial na Europa e na América. Sociologias, v.20, nº 49, 2018. As afirmativas a seguir apresentam interpretações corretas sobre o processo de migração e suas representações no mundo ocidental tratados no trecho, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)O trecho diversifica o conhecimento sobre experiências migratórias ao considerar o fator histórico dos movimentos.
Certa, porque o texto amplia a compreensão da migração ao incluir o contexto histórico, colonial e racial das representações sobre os migrantes.
- B)O autor explica a origem da representação de todos os imigrantes como usurpadores de saídas laborais.
Errada, porque o trecho não afirma que todos os imigrantes foram vistos como usurpadores de trabalho; ele trata do apagamento histórico e da racialização na construção dessas imagens.
- C)O autor revela o processo de memória seletiva que produz representação inferior de certas regiões.
Certa, porque o autor mostra uma memória seletiva que inferioriza certos grupos e regiões ao apagar a racialização e as restrições migratórias do passado.
- D)O trecho apresenta o processo de racialização de certos grupos de migrantes em relação a outros.
Certa, porque o texto explica justamente como alguns grupos migrantes foram racializados em contraste com outros, especialmente na construção da ideia de imigração branca.
Gabarito: B
O texto trata de como a memória social pode esconder partes inconvenientes do passado para construir uma imagem mais limpa do presente. Aqui, a ideia central é que muitos países do Ocidente criaram a narrativa de que sua imigração foi “branca”, pacífica e pouco conflituosa, apagando o fato de que houve racialização de europeus pobres e, ao mesmo tempo, restrições a não europeus. Isso se conecta ao tema da estratificação social porque mostra que desigualdade também aparece na forma como grupos são lembrados, classificados e hierarquizados. Perceba o truque do autor: não está falando apenas de migração como deslocamento de pessoas, mas de representação social da migração. Ou seja, quem pode ser visto como “imigrante desejável”, quem é tratado como ameaça e quem some da memória coletiva. Esse tipo de seleção não é neutro, porque ajuda a naturalizar a superioridade simbólica de certos grupos e regiões. É exatamente por isso que a letra B está errada. O trecho não diz que todos os imigrantes foram vistos como usurpadores de empregos, e sim que houve esquecimento histórico do colonialismo, da racialização e das políticas que barraram não europeus. A ideia de “invasor do mercado de trabalho” até pode aparecer em outros debates sobre imigração, mas não é o foco do texto. Então, fique com a lógica principal: memória seletiva, racialização e construção de uma Europa e de Américas “brancas” no imaginário social. Em sociologia, esse tipo de leitura é muito importante porque mostra que desigualdade não está só na renda ou na ocupação, mas também na narrativa que a sociedade conta sobre si mesma.