Para se manter a possibilidade da autonomização relativa, é necessário um largo e intenso intercâmbio com certos países científica e tecnologicamente mais avançados. Portanto, o contrapeso da permanente e considerável influência externa deve ser encontrado em identificação e valores que combinem a absorção de conhecimentos, técnicas de investigação e talentos importados com uma forte intensificação da produção original. FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. Assinale a opção que descreve corretamente o programa defendido no trecho.
- A)A defesa de medidas paliativas para a inadimplência brasileira nos campos da ciência e tecnologia.
Errada, porque o trecho não fala em medidas paliativas nem em simples remendo para a deficiência científica e tecnológica do Brasil.
- B)A possibilidade de superação da dependência tecnológica por meio de uma política de importações.
Certa, porque o texto defende absorver conhecimentos e técnicas externas para construir autonomia relativa e reduzir a dependência tecnológica.
- C)A relativização da ideologia do progresso linear, que coloca certos países à frente de outros.
Errada, porque o foco não é criticar a ideia de progresso linear, mas propor uma estratégia concreta de fortalecimento científico e tecnológico.
- D)A falta de caminhos para a participação brasileira nas produções tecnocientíficas de ponta.
Errada, porque o autor não diz que o Brasil está sem saída, e sim que há caminho para aumentar a autonomia com intercâmbio e produção original.
- E)A condenação ao intercâmbio com os países capitalistas e à sua influência imperialista.
Errada, porque o trecho não condena o intercâmbio com países avançados; ao contrário, ele o considera necessário.
Gabarito: B
Florestan Fernandes analisa a América Latina como parte de um capitalismo dependente, isto é, um desenvolvimento que não acontece de forma autônoma e isolada, porque está sempre ligado a centros mais avançados cientifica e tecnologicamente. No trecho, ele não está defendendo isolamento nem recusa ao exterior. A ideia é outra: usar o intercâmbio com países mais avançados como meio para ganhar capacidade própria de produzir conhecimento e tecnologia. Perceba a lógica: importar saber, técnicas de pesquisa e talentos pode ser útil, mas isso só faz sentido se vier acompanhado de forte estímulo à produção original. Em outras palavras, o país não deve ficar eternamente copiando, mas transformar essa influência externa em autonomia relativa. É uma estratégia de fortalecimento interno, não de submissão passiva. Por isso o gabarito é a letra B. Ela traduz justamente a superação da dependência tecnológica por meio de uma política de importações, entendendo importação aqui como etapa de absorção de conhecimento e não como fim em si mesma. O ponto central do autor é combinar abertura ao exterior com construção de capacidade nacional de pesquisa e inovação. Então, se aparecer em prova algo sobre dependência, desenvolvimento desigual ou modernização periférica, pense sempre nessa tensão entre absorver de fora e produzir por conta própria. Florestan não quer um país fechado, mas um país que aprenda com o mundo sem continuar eternamente na fila da tecnologia.