A família é produto de um verdadeiro trabalho de instituição, ritual e técnico ao mesmo tempo que visa instituir de maneira duradoura, em cada um dos membros da unidade instituída, sentimentos adequados a assegurar a integração que é a condição de existência e de persistência dessa unidade. Os ritos de instituição (palavra que vem de stare, ‘manter-se; ser estável’) visam constituir a família como entidade unida, integrada, unitária, logo, estável, constante, indiferente às flutuações dos sentimentos individuais. Esses atos inaugurais de criação (imposição do nome de família, casamento etc.) encontram seu prolongamento lógico nos inumeráveis atos de reafirmação e de reforço que visam produzir, por uma espécie de criação continuada, as afeições obrigatórias e as obrigações afetivas do sentimento familiar (amor conjugal, amor paterno e materno, amor filial, amor fraterno etc.). (BOURDIEU, Pierre. O espírito de familia. In: Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996. p. 126. Adaptado.) Ao longo do tempo e da história, o conceito de família sofreu algumas transformações significativas, mas ainda mantém algumas características comuns. O conceito de família assume sua complexidade por relacionar a natureza humana, com a cultura, através da organização de grupos sociais. Para Durkheim, a família:
- A)Contém em seu germe não apenas a escravidão, como também a servidão, pois, desde o começo, está relacionada com o trabalho. Encerra em miniatura todos os antagonismos da sociedade.
Errada, porque traz uma leitura de conflito e antagonismos sociais que não é a definição durkheimiana de família.
- B)Ainda que esteja em contínuo processo de mudanças não é uma organização simples, nem tende a desaparecer rapidamente, embora venha sendo gradativamente substituída pela escola.
Errada, porque atribui à escola a substituição gradual da família, o que não corresponde à ideia de Durkheim sobre sua função social persistente.
- C)Tem no matrimônio seu alicerce no qual a finalidade é a constituição familiar como ação social racional com relação a valores: tem como finalidade calculada o cumprimento de algum valor moral.
Errada, porque fala em ação social racional com relação a valores, conceito típico de Max Weber, e não de Durkheim.
- D)Não deve suas virtudes à unidade de descendência: é simplesmente um grupo de indivíduos que se encontram próximos uns dos outros, no centro da sociedade política. A consanguinidade pôde facilitar essa concentração.
Certa, porque expressa a visão de que a família é uma instituição social cuja importância não depende apenas da descendência biológica.
Gabarito: D
Para Durkheim, a família é uma instituição social, ou seja, algo que vai muito além do afeto espontâneo entre parentes. Ela existe porque a sociedade cria regras, papéis e obrigações que ajudam a manter o grupo unido e a transmitir normas para as novas gerações. Em sociologia, isso aparece como parte do processo de socialização: a família ensina costumes, valores, limites e comportamentos desde cedo. O ponto central é que a família não é definida apenas pela biologia ou pela descendência. Ela é moldada pela vida social, pela organização da sociedade e pelas funções que cumpre dentro dela. Por isso, em Durkheim, o que importa é a função integradora da família, e não uma ideia puramente natural ou sanguínea. É por isso que o gabarito é a letra D. A alternativa acerta ao dizer que a família não deve suas virtudes apenas à unidade de descendência, porque Durkheim entende a família como um grupo social situado no centro da sociedade política, e a consanguinidade pode até facilitar sua formação, mas não explica sozinha sua existência e importância. As outras alternativas se afastam desse olhar durkheimiano e misturam outros autores ou ideias mais ligadas a conflito social, escola ou racionalidade de ação. Em prova, quando aparecer família em Durkheim, pense logo em instituição social, integração e socialização, não apenas em laço de sangue.